A Sandra chegou ao apartamento já com a caixa na mão — uma caixa de sapatos velha, com elástico cor de ferrugem. Seu novo endereço ficava do outro lado da cidade, num bairro que ela ainda não sabia nomear no escuro.
O vizinho do 302 estava na porta, fingindo procurar as chaves na bolsa. Ela o cumprimentou com o queixo porque as mãos estavam ocupadas. Ele acenou. Já se conheciam assim há três anos — de queixo, de aceno, de boa tarde dita na metade da frase.
Dentro, o apartamento estava vazio e tinha o cheiro que os apartamentos vazios têm: um cheiro de tempo suspenso, de alguém que foi embora sem pressa. Ela passou o dedo numa mancha de umidade na parede do corredor — uma mancha que tinha o formato de nada, mas que ela havia chamado, secretamente, de mapa.
Na bancada da cozinha estava a chave. A mesma chave de quando tinha chegado, com o chaveiro de plástico azul que ela nunca trocou porque achava que ia trocar logo. Ela a pegou, sentiu o peso — menor do que parecia — e ficou um momento parada, olhando pelo vidro sujo da janela. Lá fora, um vendedor de frutas empurrava o carrinho rua acima, devagar, como se estivesse apenas pensando em voz alta.
Ela pôs a chave no bolso. Não ia deixar no batente, como havia planejado. Talvez depois, pensou, e soube que não havia depois.
Na escada, passou pelo homem do 302 outra vez. Desta vez, ele estava de costas, e ela desceu sem dizer nada. Pensou em chamá-lo pelo nome e percebeu que não sabia o nome dele.
Do lado de fora, a tarde cheirava a chuva que ainda não tinha caído.
#contocurto #microficcao #literatura #escrita