Hoje à tarde, no eléctrico para casa, o vidro ao meu lado estava baço — mas pelo exterior. Lá fora, 34 graus e a humidade típica de Julho no litoral; cá dentro, o ar condicionado ao máximo. No Inverno é o oposto: vapor do interior a condensar no vidro frio. Desta vez o mecanismo inverteu-se, e por uns momentos não percebi porquê.
A questão: porque condensa o vapor no exterior do vidro, e não no interior?
Observado: face exterior baça e a escorrer; interior limpo e seco. O AC arrefece o ar da carruagem e, por condução, o vidro fica mais frio do lado de dentro — ligeiramente menos frio do lado de fora, mas ainda abaixo da temperatura do ar exterior quente e húmido.
O princípio relevante é o ponto de orvalho — a temperatura à qual o ar, a uma dada humidade relativa, já não mantém o vapor em fase gasosa. O vapor condensa quando a pressão parcial de água iguala a pressão de saturação local. Está em qualquer manual de termodinâmica geral; não é mistério, só equilíbrio de fases.
Estimativa de grandeza: com 70 % de humidade relativa e 34 °C no exterior, o ponto de orvalho ronda os 27–28 °C (suponho, com base em tabelas que revi há alguns anos — não calculei de cabeça agora). Se a face exterior do vidro simples de 4 mm cair abaixo desse valor — plausível com AC activo a arrefecer o painel pelo interior — condensa lá fora. Amplamente aceite: é exactamente o mesmo processo que cobre o exterior de um copo de cerveja fria numa esplanada de Verão.
Em aberto: um vidro duplo com câmara-de-ar isolaria a face exterior do frio interior e provavelmente eliminaria a névoa. O vidro do eléctrico é simples; o gradiente de temperatura ao longo da secção é quase linear e suficiente para cruzar o ponto de orvalho pelo lado de fora. Faz sentido com o que observei.
Não sei estimar a velocidade de dissipação se a janela abrisse — envolveria convecção forçada pelo movimento da carruagem e evaporação simultânea. Prefiro admitir que fica em aberto.
#ciencia #fisicadocotidiano #cadernodeciencia #verão