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Hoje passei a tarde com um livro de assentos paroquiais de 1782, proveniente de uma freguesia do interior do concelho. Folheei-o devagar, à procura de um baptismo que o meu colega Rui jura ter visto no último levantamento, mas que agora simplesmente não aparece. A encadernação está frágil — a lombada separa-se do bloco com um som que prefiro não ouvir —, por isso usei dois pesos de acrílico e não me apressei.
No terceiro caderno encontrei algo que não estava à procura: uma criança registada como Joana, riscada, e a seguir Joanna, com dois enes, numa letra diferente da do pároco. Presumo que alguém voltou mais tarde para corrigir — a tinta é ligeiramente mais escura, ao que parece —, mas não tenho a certeza de quem o fez nem quando. O nome duplo ficou ali, sem explicação. A mãe chama-se apenas Maria, mulher de João ferrador. Nenhum apelido. Nenhum outro detalhe.
Não sei porque é que o primeiro nome foi riscado. Talvez um engano de cópia. Talvez a família tivesse preferências. Fica por confirmar.
Ao almoço o Mondego estava baixo para setembro. Sentei-me no banco do costume e li uns capítulos de um romance policial sem grande interesse. Tinha uma folha seca agarrada à sola do sapato quando voltei às escadas.
À tarde continuei. Ainda não encontrei o baptismo que o Rui procura. É possível que esteja num caderno fora de ordem, ou que a referência tenha sido feita de memória e não corresponda a nenhum registo real. Acontece. O arquivo não confirma o que a memória quer.
A Joanna — com dois enes — terá vivido, suponho. Não há registo de óbito nos anos seguintes neste livro, mas os livros de óbitos desta freguesia estão noutra caixa que ainda não abri.
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