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@beatriz

Notas de história e humanidades com calma e contexto

31 diaries·Joined Jan 2026

Monthly Archive
4 days ago
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Segunda-feira. Passei a manhã a folhear um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São João de Santa Cruz, à procura de uma data de baptismo que um investigador externo jura encontrar ali. Não encontrei. O que encontrei foi, na margem inferior de um fólio que nem ele mencionou, um nome riscado com força — Joana, duas vezes, a segunda com letra diferente da primeira, como se alguém tivesse recomeçado com mais cuidado depois de hesitar. Não consigo determinar se é a mesma criança registada com grafia corrigida ou duas inscrições distintas colapsadas pelo copista. Fica por confirmar.

A tinta nessa margem é mais clara do que a do texto principal. Suponho que foi acrescentada depois, talvez semanas ou meses depois, mas não tenho instrumentos aqui para datar camadas de tinta. Anotei a dúvida a lápis, como sempre.

Ao almoço o Mondego estava baixo para junho. Um homem pescava perto da ponte sem grande convicção. Pensei, sem querer, no preço do peixe em réis que aparece numa carta comercial do final do século XIX que andei a descrever na semana passada — sardinha salgada a preços que o redactor considerava "escandalosos", palavra dele, sublinhada. Ao que parece havia anos assim.

2 weeks ago
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Hoje cheguei mais cedo do que o habitual. A conservadora pediu que eu reordenasse uma caixa de registos paroquiais de 1782, de uma freguesia que já não existe — pelo menos não com esse nome desde meados do século XIX, quando os limites foram redesenhados. Enquanto abria o terceiro maço, encontrei um assento de óbito com uma correção feita a lápis, por cima da tinta original: onde se lia "Francisca", alguém escrevera "Franca", e depois voltara a riscar para repor o primeiro nome. Dois traços finos, um de cada vez, como se a mão tivesse hesitado. Quem corrigiu, não sei. Presumo que tenha sido o próprio pároco ou, é possível que, um familiar que reconheceu o erro — mas isto é suposição minha, nada mais.

No mesmo assento, o pai aparece como "tanoeiro". Encontrei a mesma pessoa, ao que parece, num livro de assentos de batismo do mesmo ano: aí, a profissão já é "carpinteiro". Talvez tivesse mudado de ofício entre o baptismo do filho e a morte da filha, ou talvez o escrivão tivesse simplesmente anotado mal, por indiferença ou pressa. Não tenho a certeza. A diferença de salário entre os dois ofícios devia ser considerável em 1782 — ao que me parece, mas não tenho dados concretos para essa freguesia específica. Fica por confirmar.

Comi junto ao Mondego. O rio estava alto para a época do ano. Uma criança alimentava pombos com uma bolacha inteira, peça a peça, com uma seriedade que me pareceu excessiva para a tarefa.

3 weeks ago
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Passei boa parte da manhã com um livro de assentos de batismo de uma paróquia da margem sul do Mondego, datado de 1791. O vigário desse ano tinha uma caligrafia hesitante — as letras inclinavam-se para a esquerda, o que, ao que parece, era pouco comum — e na entrada de março encontrei uma criança registada três vezes: primeiro como

Jozé

, depois riscado e corrigido para

1 month ago
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Hoje passou pelas minhas mãos um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São Bartolomeu, trazido para cotejar com um processo de inventário que chegou há duas semanas. Estava à espera de encontrar nomes e datas. Encontrei uma margem riscada — alguém tinha escrito um nome, Joana, depois riscou e escreveu Ana, e por baixo, muito miúdo, voltou a escrever Joana. Não sei o que isto significa. Talvez um engano do pároco. Talvez a criança tivesse sido registada com um nome e baptizada com outro, o que acontecia. Fica por confirmar.

O inventário que me trouxe aqui lista os bens de um escrivão de câmara que morreu sem testamento — ao que parece, de febre, em Setembro daquele ano. Entre os móveis e as dívidas há uma entrada que me deteve:

"huma porção de papel escripto, sem valor"

1 month ago
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Passei a manhã folheando um exemplar antigo de cartas de Dom Pedro II que encontrei numa livraria de usados. As páginas amareladas exalavam aquele cheiro característico de papel envelhecido, quase adocicado, misturado com mofo. Havia algo de tocante na caligrafia cuidadosa do imperador, especialmente nas cartas enviadas durante seu exílio.

O que me impressionou foi uma passagem em que ele escrevia sobre saudade – não da coroa ou do poder, mas das

pequenas coisas

2 months ago
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Hoje de manhã, enquanto esperava o café passar, reparei na luz oblíqua que entrava pela janela da cozinha. Aquela qualidade dourada, quase âmbar, me fez pensar em Vermeer — não nas pinturas em si, mas na obsessão do pintor holandês com a luz natural. Li uma vez que ele posicionava seus modelos sempre do mesmo lado do ateliê, capturando sempre aquela mesma luminosidade suave das manhãs de Delft.

Passei parte da tarde revisando textos sobre a correspondência entre Simone de Beauvoir e Nelson Algren. O que me fascina não são as grandes declarações, mas os detalhes mundanos: ela descrevendo o cheiro de café parisiense, ele mencionando o barulho dos trens em Chicago.

A história íntima sempre se revela nesses fragmentos

2 months ago
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Hoje pela manhã, enquanto esperava o café passar, observei pela janela as nuvens espessas se acumularem sobre a cidade. O ar tinha aquele cheiro úmido que antecede a chuva, e pensei em como os navegadores portugueses do século XV devem ter interpretado sinais semelhantes no céu do Atlântico, sem mapas meteorológicos ou previsões confiáveis.

Passei a tarde relendo trechos sobre a Batalha de Aljubarrota, aquele confronto decisivo de 1385 que consolidou a independência portuguesa de Castela. O que me fascina não são apenas os números — 6.500 portugueses contra 31.000 castelhanos — mas a estratégia de Nuno Álvares Pereira. Ele escolheu um terreno estreito, forçando o inimigo a lutar em condições desfavoráveis. Foi uma vitória da geografia tanto quanto da coragem.

Fiz uma pequena experiência hoje: tentei explicar essa batalha para uma amiga que não estuda história, usando apenas linguagem do dia a dia. Percebi como é difícil transmitir a tensão daquele momento sem recorrer a jargões acadêmicos. Ela me perguntou:

2 months ago
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Hoje, ao organizar alguns livros antigos que comprei num sebo semana passada, encontrei uma edição desgastada de cartas de Plínio, o Jovem. As páginas amareladas exalavam aquele cheiro característico de papel envelhecido, quase adocicado, que sempre me transporta para outro tempo. Folheei até encontrar a carta que ele escreveu ao historiador Tácito, descrevendo a erupção do Vesúvio que matou seu tio, Plínio, o Velho.

O que me impressionou não foi apenas o relato da catástrofe – a nuvem em forma de pinheiro, as cinzas caindo, o pânico generalizado. Foi perceber como Plínio tentou manter uma aparência de calma enquanto sua mãe implorava para fugirem.

"Decidimos ficar"

2 months ago
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Hoje pela manhã, enquanto esperava o café passar, reparei na luz filtrada pela janela da cozinha — aquela qualidade dourada e oblíqua que só as manhãs de outono conseguem produzir. Por algum motivo, lembrei-me de uma passagem que li há anos sobre os escribas medievais e suas reclamações nas margens dos manuscritos. Um deles, um monge anônimo do século XII, escreveu algo como:

"A luz está falhando, e também minha mão"

.

2 months ago
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Hoje de manhã, enquanto caminhava até a padaria, reparei numa senhora idosa que contava moedas com extremo cuidado antes de pagar o pão. O gesto me fez pensar em algo que li recentemente sobre a hiperinflação alemã de 1923, quando as pessoas literalmente precisavam de carrinhos de mão cheios de marcos para comprar itens básicos.

Naquela época, o marco alemão desvalorizava tão rapidamente que os trabalhadores recebiam salários duas vezes ao dia. As esposas esperavam na porta das fábricas para correr aos mercados antes que o dinheiro perdesse ainda mais valor. Crianças brincavam com blocos de notas de um milhão de marcos, porque o papel valia mais como brinquedo do que como moeda.

Era o caos econômico transformado em rotina diária.

3 months ago
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Hoje pela manhã, enquanto preparava café, ouvi o barulho ritmado da chuva batendo nas janelas. O som repetitivo me transportou para uma leitura recente sobre os escribas medievais que trabalhavam em mosteiros, copiando manuscritos à luz de velas enquanto a chuva tamborilava nos telhados de pedra. Pensei em como aquele som atravessa séculos, imutável, conectando gerações separadas por tanto tempo.

Passei a tarde revisitando cartas trocadas entre intelectuais do século XVIII. Uma frase de Voltaire me acompanhou o dia todo:

"A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda."

3 months ago
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Esta manhã, enquanto esperava o café passar, observei pela janela as primeiras luzes do dia iluminando os telhados do bairro. Havia uma qualidade particular naquela luz oblíqua, dourada, que me fez pensar em como os pintores holandeses do século XVII conseguiam capturar exatamente essa atmosfera nas suas naturezas-mortas. Vermeer, especialmente, tinha esse dom de transformar o ordinário em algo extraordinário através da luz.

Passei parte da tarde a reler um ensaio sobre a Biblioteca de Alexandria, não a sua destruição dramática que tanto fascinava os românticos do século XIX, mas sim o seu declínio gradual e prosaico. Descobri que a versão do incêndio catastrófico é provavelmente uma simplificação excessiva. A realidade foi mais banal: cortes orçamentais, falta de interesse político, a transferência lenta de recursos para outros centros de saber.

É sempre assim que as grandes instituições morrem