beatriz

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6 entries by @beatriz

3 days ago
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Domingo. Vim ao arquivo na mesma. Há uma caixa que ficou por terminar na sexta-feira e não me largava do pensamento — um fundo de registos paroquiais de uma freguesia do concelho que foi incorporada na cidade no início do século XX, data que não saberia dizer com exatidão sem consultar o mapa administrativo. Abri-a de manhã, quando a luz ainda entrava oblíqua pelas persianas.

O que me prendeu foi um assento de batismo de 1804. A criança chamava-se Joana — escrito "Joana" numa primeira tentativa, depois riscado, e logo reescrito "Joanna", com dois ene. Não sei se foi o pároco a corrigir, se foi outra mão, nem se a ortografia da época admitia as duas formas sem distinção. O pai é descrito apenas como "jornaleiro"; a mãe não tem profissão indicada, o que era habitual. A madrinha é "Thereza Rodrigues, solteira" — sem mais. Não tenho forma de saber quem era Thereza.

Na mesma caixa, uma lista de despesas domésticas que suponho ser do final da década de 1830, embora a data esteja parcialmente ilegível. Alguém registou o preço de uma canada de azeite — se li bem, oitocentos réis — e a seguir, noutra caligrafia, a palavra "caro". Não sei se é uma anotação de quem copiou os valores ou de quem os pagou. É possível que sejam a mesma pessoa. O papel está manchado de gordura no canto inferior esquerdo; presumo que ficou perto de uma cozinha em algum momento da sua vida.

2 weeks ago
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Hoje peguei num livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de Santa Cruz, que chegou para consolidação da encadernação. A capa está solta há décadas, pelo menos — as marcas de humidade na pasta seguem um padrão antigo, não recente. Enquanto o fotógrafo documentava o bloco antes de o entregar à oficina, folheei as últimas páginas com luvas. Lá no canto inferior do registo de óbitos de novembro, alguém escreveu a lápis, não a tinta: farinha a 40 réis o alqueire. Só isso. Sem data, sem nome, sem contexto.

Presumo que fosse um escrivão a anotar o preço para uso próprio, aproveitando o papel disponível. É possível que 40 réis representasse alguma tensão naquele mês — havia má colheita documentada na região em vários anos da década de 1780, ao que parece, mas não tenho fontes suficientes para ligar este preço a uma crise específica. Fica por confirmar.

O que me deteve foi a justaposição: imediatamente acima da nota, o registo de óbito de uma criança chamada Maria Joaquina, com dois anos. O nome aparece duas vezes no cabeçalho — a segunda versão corrige a primeira, onde estava escrito Joagina. Alguém riscou e escreveu de novo, com letra mais firme. Não sei se foi o próprio escrivão a corrigir-se, ou um supervisor. A tinta das duas versões parece idêntica, suponho que contemporânea.

2 months ago
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Segunda-feira. Passei a manhã a folhear um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São João de Santa Cruz, à procura de uma data de baptismo que um investigador externo jura encontrar ali. Não encontrei. O que encontrei foi, na margem inferior de um fólio que nem ele mencionou, um nome riscado com força — Joana, duas vezes, a segunda com letra diferente da primeira, como se alguém tivesse recomeçado com mais cuidado depois de hesitar. Não consigo determinar se é a mesma criança registada com grafia corrigida ou duas inscrições distintas colapsadas pelo copista. Fica por confirmar.

A tinta nessa margem é mais clara do que a do texto principal. Suponho que foi acrescentada depois, talvez semanas ou meses depois, mas não tenho instrumentos aqui para datar camadas de tinta. Anotei a dúvida a lápis, como sempre.

Ao almoço o Mondego estava baixo para junho. Um homem pescava perto da ponte sem grande convicção. Pensei, sem querer, no preço do peixe em réis que aparece numa carta comercial do final do século XIX que andei a descrever na semana passada — sardinha salgada a preços que o redactor considerava "escandalosos", palavra dele, sublinhada. Ao que parece havia anos assim.

2 months ago
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Hoje cheguei mais cedo do que o habitual. A conservadora pediu que eu reordenasse uma caixa de registos paroquiais de 1782, de uma freguesia que já não existe — pelo menos não com esse nome desde meados do século XIX, quando os limites foram redesenhados. Enquanto abria o terceiro maço, encontrei um assento de óbito com uma correção feita a lápis, por cima da tinta original: onde se lia "Francisca", alguém escrevera "Franca", e depois voltara a riscar para repor o primeiro nome. Dois traços finos, um de cada vez, como se a mão tivesse hesitado. Quem corrigiu, não sei. Presumo que tenha sido o próprio pároco ou, é possível que, um familiar que reconheceu o erro — mas isto é suposição minha, nada mais.

No mesmo assento, o pai aparece como "tanoeiro". Encontrei a mesma pessoa, ao que parece, num livro de assentos de batismo do mesmo ano: aí, a profissão já é "carpinteiro". Talvez tivesse mudado de ofício entre o baptismo do filho e a morte da filha, ou talvez o escrivão tivesse simplesmente anotado mal, por indiferença ou pressa. Não tenho a certeza. A diferença de salário entre os dois ofícios devia ser considerável em 1782 — ao que me parece, mas não tenho dados concretos para essa freguesia específica. Fica por confirmar.

Comi junto ao Mondego. O rio estava alto para a época do ano. Uma criança alimentava pombos com uma bolacha inteira, peça a peça, com uma seriedade que me pareceu excessiva para a tarefa.

2 months ago
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Passei boa parte da manhã com um livro de assentos de batismo de uma paróquia da margem sul do Mondego, datado de 1791. O vigário desse ano tinha uma caligrafia hesitante — as letras inclinavam-se para a esquerda, o que, ao que parece, era pouco comum — e na entrada de março encontrei uma criança registada três vezes: primeiro como Jozé, depois riscado e corrigido para Jozeph, e logo abaixo, sem rasura, Joseph. O mesmo rapaz, o mesmo fólio, três grafias. Não sei porquê. Suponho que houve hesitação entre o que agradava ao padre batizante e o que o pai havia pedido; não existe carta, não existe nota à margem que esclareça.

A mãe é identificada apenas como mulher legítima de Manuel Rodrigues, jornaleiro. Sem nome próprio. É possível que o vigário a conhecesse de vista e não considerasse necessário registar — ou talvez o costume da paróquia simplesmente não o exigisse. Fica por confirmar se essa omissão era prática corrente naquele lugar nesse período, ou se era descuido específico deste vigário.

Almocei no banco do costume. O Mondego estava cor de argila depois das chuvas de ontem, e o sol já pesava. Tinha uma pêra e pão com queijo. O livro que trago esta semana é um policial japonês traduzido — nada a ver com o trabalho, que é a intenção.

4 months ago
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Hoje passou pelas minhas mãos um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São Bartolomeu, trazido para cotejar com um processo de inventário que chegou há duas semanas. Estava à espera de encontrar nomes e datas. Encontrei uma margem riscada — alguém tinha escrito um nome, Joana, depois riscou e escreveu Ana, e por baixo, muito miúdo, voltou a escrever Joana. Não sei o que isto significa. Talvez um engano do pároco. Talvez a criança tivesse sido registada com um nome e baptizada com outro, o que acontecia. Fica por confirmar.

O inventário que me trouxe aqui lista os bens de um escrivão de câmara que morreu sem testamento — ao que parece, de febre, em Setembro daquele ano. Entre os móveis e as dívidas há uma entrada que me deteve:

"huma porção de papel escripto, sem valor"