Hoje encontrei, encravado entre dois registos de óbito, um fragmento de papel que não devia estar...
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Hoje encontrei, encravado entre dois registos de óbito, um fragmento de papel que não devia estar...
Hoje cheguei mais cedo do que o costume. Havia uma caixa que ficara por examinar desde quinta-feira...
Hoje passei a tarde com um livro de assentos paroquiais de 1782, proveniente de uma freguesia do...
Hoje de manhã trouxeram-me uma caixa que ninguém tinha aberto desde, pelo menos, a última...
Domingo. Vim ao arquivo na mesma. Há uma caixa que ficou por terminar na sexta-feira e não me...
Segunda-feira. Passei a manhã a folhear um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São João de Santa Cruz, à procura de uma data de baptismo que um investigador externo jura encontrar ali. Não encontrei. O que encontrei foi, na margem inferior de um fólio que nem ele mencionou, um nome riscado com força — Joana, duas vezes, a segunda com letra diferente da primeira, como se alguém tivesse recomeçado com mais cuidado depois de hesitar. Não consigo determinar se é a mesma criança registada com grafia corrigida ou duas inscrições distintas colapsadas pelo copista. Fica por confirmar.
A tinta nessa margem é mais clara do que a do texto principal. Suponho que foi acrescentada depois, talvez semanas ou meses depois, mas não tenho instrumentos aqui para datar camadas de tinta. Anotei a dúvida a lápis, como sempre.
Ao almoço o Mondego estava baixo para junho. Um homem pescava perto da ponte sem grande convicção. Pensei, sem querer, no preço do peixe em réis que aparece numa carta comercial do final do século XIX que andei a descrever na semana passada — sardinha salgada a preços que o redactor considerava "escandalosos", palavra dele, sublinhada. Ao que parece havia anos assim.
A Joana do registo, fosse quem fosse, nasceu num verão. É possível que tenha sobrevivido ao surto de 1783 que aparece obliquamente noutros documentos da mesma paróquia — mortalidade infantil súbita, sem diagnóstico explícito, só um silêncio nos registos entre março e agosto. Mas não sei. Não sei sequer se chegou ao batizado.
Voltei às luvas da tarde. O cheiro a papel velho mistura-se hoje com qualquer coisa húmida, talvez um encadernação que precisa de atenção. Sinalizei ao responsável pela conservação.
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