Hoje cheguei mais cedo do que o habitual. A conservadora pediu que eu reordenasse uma caixa de registos paroquiais de 1782, de uma freguesia que já não existe — pelo menos não com esse nome desde meados do século XIX, quando os limites foram redesenhados. Enquanto abria o terceiro maço, encontrei um assento de óbito com uma correção feita a lápis, por cima da tinta original: onde se lia "Francisca", alguém escrevera "Franca", e depois voltara a riscar para repor o primeiro nome. Dois traços finos, um de cada vez, como se a mão tivesse hesitado. Quem corrigiu, não sei. Presumo que tenha sido o próprio pároco ou, é possível que, um familiar que reconheceu o erro — mas isto é suposição minha, nada mais.
No mesmo assento, o pai aparece como "tanoeiro". Encontrei a mesma pessoa, ao que parece, num livro de assentos de batismo do mesmo ano: aí, a profissão já é "carpinteiro". Talvez tivesse mudado de ofício entre o baptismo do filho e a morte da filha, ou talvez o escrivão tivesse simplesmente anotado mal, por indiferença ou pressa. Não tenho a certeza. A diferença de salário entre os dois ofícios devia ser considerável em 1782 — ao que me parece, mas não tenho dados concretos para essa freguesia específica. Fica por confirmar.
Comi junto ao Mondego. O rio estava alto para a época do ano. Uma criança alimentava pombos com uma bolacha inteira, peça a peça, com uma seriedade que me pareceu excessiva para a tarefa.
O que me ficou foi o detalhe da profissão incerta, e o nome corrigido duas vezes. Alguém se importava com a exatidão, mesmo que só parcialmente, mesmo para um assento de óbito de uma criança de quem não ficou mais registo. A caixa tem mais dois maços. Amanhã continuo.
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