Hoje passou pelas minhas mãos um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São Bartolomeu, trazido para cotejar com um processo de inventário que chegou há duas semanas. Estava à espera de encontrar nomes e datas. Encontrei uma margem riscada — alguém tinha escrito um nome, Joana, depois riscou e escreveu Ana, e por baixo, muito miúdo, voltou a escrever Joana. Não sei o que isto significa. Talvez um engano do pároco. Talvez a criança tivesse sido registada com um nome e baptizada com outro, o que acontecia. Fica por confirmar.
O inventário que me trouxe aqui lista os bens de um escrivão de câmara que morreu sem testamento — ao que parece, de febre, em Setembro daquele ano. Entre os móveis e as dívidas há uma entrada que me deteve:
"huma porção de papel escripto, sem valor"
Suponho que eram rascunhos de ofícios, talvez cartas pessoais. Ninguém considerou necessário conservá-los. Às vezes penso nessa pilha de papel e no que continha. Depois deixo de pensar, porque não adianta.
Comi na margem do Mondego com um romance policial que estou a ler pela terceira vez — já sei quem matou e mesmo assim funciona. O rio estava alto para a época, ou assim me pareceu. Não tomei nota.
De tarde, a encadernação de um caderno de contas do final do século XIX separou-se da lombada enquanto eu o abria com todo o cuidado. O cheiro a cola velha é diferente do cheiro a papel velho — mais acre, mais orgânico. Deixei na bancada para seguir para conservação. A última entrada do caderno regista o preço de azeite em Março de um ano ilegível: réis riscados, outro valor escrito por cima. Caro, presumo, por causa de qualquer mau ano de colheita. Ou não. Não tenho a certeza.
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