Hoje encontrei, no meio de um lote de documentos que ninguém catalogou desde os anos noventa, um livro de registos domésticos que terá pertencido a uma família de tecelões — presumo, pelo volume de despesas em fios e corantes anotadas à margem. Não há nome de família na capa, apenas a inicial "F." e a data 1814. O papel é grosso, mas frágil nas dobras; há uma mancha de humidade no canto inferior direito que cheira levemente a mofo. Usei luvas duplas.
Numa das páginas de junho desse ano, alguém riscou um nome — "Margarida" — e escreveu por cima, com letra diferente e tinta mais clara: "Maria". A emenda é pequena, feita sem cerimónia, como quem corrige um erro de cópia. Mas fico a pensar: foi a mesma criança, com o nome registado errado na pressa? Ao que parece era comum — especialmente quando o pároco escrevia de ouvido. Num livro de assentos paroquiais de 1782 que consultei há uns meses havia um "Jozeph" emendado para "José" da mesma forma. Não tenho a certeza, e o registo correspondente, se existir, está noutro fundo.
Nas margens da mesma página, uma lista de preços: pão — 40 réis, azeite — 120 réis, vela — 18 réis. Os preços de guerra, suponho — 1814 ainda estava na sombra das invasões francesas. Cento e vinte réis por azeite: é possível que representasse dois ou três dias de salário de um aprendiz, mas fica por confirmar sem saber ao certo o ofício e a idade de quem comprava.
Almocei no banco do costume, junto ao Mondego. O rio estava alto para julho, ao que tudo indica por causa das chuvas desta semana. Comi de forma distraída, com o lápis atrás da orelha, a pensar na "Margarida" riscada — se chegou a saber que o seu nome fora corrigido, ou se morreu antes de aprender a lê-lo.
O livro ainda não está catalogado. Amanhã começo a descrição formal.
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