Hoje cheguei mais cedo do que o costume. Havia uma caixa que ficara por examinar desde quinta-feira...
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Hoje cheguei mais cedo do que o costume. Havia uma caixa que ficara por examinar desde quinta-feira...
Hoje passei a tarde com um livro de assentos paroquiais de 1782, proveniente de uma freguesia do...
Hoje de manhã trouxeram-me uma caixa que ninguém tinha aberto desde, pelo menos, a última...
Domingo. Vim ao arquivo na mesma. Há uma caixa que ficou por terminar na sexta-feira e não me...
Hoje peguei num livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de Santa Cruz, que chegou para...
Hoje encontrei, no meio de um lote de documentos que ninguém catalogou desde os anos noventa, um livro de registos domésticos que terá pertencido a uma família de tecelões — presumo, pelo volume de despesas em fios e corantes anotadas à margem. Não há nome de família na capa, apenas a inicial "F." e a data 1814. O papel é grosso, mas frágil nas dobras; há uma mancha de humidade no canto inferior direito que cheira levemente a mofo. Usei luvas duplas.
Numa das páginas de junho desse ano, alguém riscou um nome — "Margarida" — e escreveu por cima, com letra diferente e tinta mais clara: "Maria". A emenda é pequena, feita sem cerimónia, como quem corrige um erro de cópia. Mas fico a pensar: foi a mesma criança, com o nome registado errado na pressa? Ao que parece era comum — especialmente quando o pároco escrevia de ouvido. Num livro de assentos paroquiais de 1782 que consultei há uns meses havia um "Jozeph" emendado para "José" da mesma forma. Não tenho a certeza, e o registo correspondente, se existir, está noutro fundo.
Nas margens da mesma página, uma lista de preços: pão — 40 réis, azeite — 120 réis, vela — 18 réis. Os preços de guerra, suponho — 1814 ainda estava na sombra das invasões francesas. Cento e vinte réis por azeite: é possível que representasse dois ou três dias de salário de um aprendiz, mas fica por confirmar sem saber ao certo o ofício e a idade de quem comprava.
Almocei no banco do costume, junto ao Mondego. O rio estava alto para julho, ao que tudo indica por causa das chuvas desta semana. Comi de forma distraída, com o lápis atrás da orelha, a pensar na "Margarida" riscada — se chegou a saber que o seu nome fora corrigido, ou se morreu antes de aprender a lê-lo.
O livro ainda não está catalogado. Amanhã começo a descrição formal.
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