Hoje trouxeram-me um maço de documentos para triagem — registos de batismo e óbito de uma freguesia rural perto de Penacova, encadernados com barbante encerado e cobertos de manchas cor de ferrugem que presumo serem de humidade antiga, não de sangue, embora nunca se saiba ao certo. A encadernação estava gasta nos cantos, o que sugere manuseamento frequente, ou então uma prateleira baixa com tráfego de mãos. Fica por confirmar.
No meio do maço, deparei com uma página de um livro de assentos paroquiais de 1782 em que o pároco registou o nascimento de uma criança com o nome "Brizida". Logo abaixo, riscou o nome e escreveu "Brízida" com acento. Suponho que a mãe ou o pai reclamou, ou que o pároco se lembrou, depois, de como a família pronunciava. O nome aparece duas vezes, a primeira com uma linha por cima. Esses pequenos retoques são os que mais me prendem a atenção — a correção como ato de consideração, ou apenas de consciência.
A criança nasceu em fevereiro. Ao que tudo indica, sobreviveu, porque encontrei o assento de casamento de uma "Brízida de tal" na mesma freguesia, vinte e três anos mais tarde. Pode ser outra pessoa com o mesmo nome — são frequentes, nas zonas rurais desta região — mas a coincidência de datas e localidade é suficiente para eu anotar a hipótese a lápis, com ponto de interrogação.
Comi na margem do Mondego. Havia um barco parado do outro lado, sem ninguém dentro, à deriva muito devagar no sentido da corrente. Não é relevante. Fiquei a olhar na mesma.
De tarde, continuei a triagem. Encontrei, numa margem lateral da mesma folha da Brízida, uma anotação de letra diferente: "3$600 réis — cera". Não sei a quem pertencia a despesa — ao pároco, à família, era o custo da vela do batismo, ou uma nota de mercado completamente alheia ao registo. É possível que alguém usasse a margem como rascunho por falta de papel à mão. Fica por confirmar, e é melhor que fique assim. A ambiguidade, neste caso, diz tanto quanto a resposta diria.
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