Hoje de manhã passei quase duas horas com um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São Bartolomeu. Fui à procura de um batismo específico que um investigador pediu — um nome de família que aparece noutro fundo, sem data segura. Não o encontrei. O que me deteve foi outra coisa: uma linha riscada com força num fólio do meio do volume, não cortada com o traço fino habitual do pároco, mas raspada com algum instrumento, como se alguém quisesse apagar a existência e não apenas a palavra. Debaixo da rasura, à luz oblíqua da lupa, lê-se algo que se parece com "Ana" e talvez um apelido começado em "C". Não consigo garantir.
Ao que parece, a criança foi registada primeiro com grafia errada — "Joanna" em vez de "Joana", suponho — e o pároco corrigiu na mesma sessão, como era hábito. Mas a raspa é diferente, posterior: a tinta parece mais acastanhada, menos ferruginosa do que a do registo. Alguém voltou ao volume mais tarde. Não sei quando, nem sei porquê. É possível que fosse o próprio pároco anos depois; é igualmente possível que não fosse ele.
No canto inferior do verso da folha, em letra miúda que não é de quem assinou o registo, há um preço anotado: 320 réis. Sem contexto nenhum. Pode ser a esmola de um batismo, o custo de uma certidão passada à posteriori, ou algo completamente alheio ao documento. Fica por confirmar.
Comi no banco junto ao Mondego. Estava quente, poucas sombras, um pato entrou pelo relvado como se soubesse que ninguém o ia apanhar. Pensei na Ana — se chegou à idade adulta, se alguém alguma vez guardou o nome riscado, se ela própria chegou a saber. Provavelmente não sabia ler. Provavelmente não importava, no sentido em que o mundo seguiu sem a preservar.
Deixei o fólio marcado com um papel sem cola. Amanhã comparo a tinta com outras entradas tardias do mesmo volume, se houver tempo.
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