Hoje peguei num livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de Santa Cruz, que chegou para consolidação da encadernação. A capa está solta há décadas, pelo menos — as marcas de humidade na pasta seguem um padrão antigo, não recente. Enquanto o fotógrafo documentava o bloco antes de o entregar à oficina, folheei as últimas páginas com luvas. Lá no canto inferior do registo de óbitos de novembro, alguém escreveu a lápis, não a tinta: farinha a 40 réis o alqueire. Só isso. Sem data, sem nome, sem contexto.
Presumo que fosse um escrivão a anotar o preço para uso próprio, aproveitando o papel disponível. É possível que 40 réis representasse alguma tensão naquele mês — havia má colheita documentada na região em vários anos da década de 1780, ao que parece, mas não tenho fontes suficientes para ligar este preço a uma crise específica. Fica por confirmar.
O que me deteve foi a justaposição: imediatamente acima da nota, o registo de óbito de uma criança chamada Maria Joaquina, com dois anos. O nome aparece duas vezes no cabeçalho — a segunda versão corrige a primeira, onde estava escrito Joagina. Alguém riscou e escreveu de novo, com letra mais firme. Não sei se foi o próprio escrivão a corrigir-se, ou um supervisor. A tinta das duas versões parece idêntica, suponho que contemporânea.
Almocei no banco habitual junto ao Mondego. O rio estava baixo para agosto, mais do que recordo de outros anos — não tenho dados, é apenas a impressão de quem passa. Não escrevi nada sobre isso no caderno. Deixei o lápis no bolso.
A encadernação fica na oficina até setembro. Até lá, o preço da farinha e o nome de Maria Joaquina ficam separados do resto do livro.
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