Domingo. Vim ao arquivo na mesma. Há uma caixa que ficou por terminar na sexta-feira e não me largava do pensamento — um fundo de registos paroquiais de uma freguesia do concelho que foi incorporada na cidade no início do século XX, data que não saberia dizer com exatidão sem consultar o mapa administrativo. Abri-a de manhã, quando a luz ainda entrava oblíqua pelas persianas.
O que me prendeu foi um assento de batismo de 1804. A criança chamava-se Joana — escrito "Joana" numa primeira tentativa, depois riscado, e logo reescrito "Joanna", com dois ene. Não sei se foi o pároco a corrigir, se foi outra mão, nem se a ortografia da época admitia as duas formas sem distinção. O pai é descrito apenas como "jornaleiro"; a mãe não tem profissão indicada, o que era habitual. A madrinha é "Thereza Rodrigues, solteira" — sem mais. Não tenho forma de saber quem era Thereza.
Na mesma caixa, uma lista de despesas domésticas que suponho ser do final da década de 1830, embora a data esteja parcialmente ilegível. Alguém registou o preço de uma canada de azeite — se li bem, oitocentos réis — e a seguir, noutra caligrafia, a palavra "caro". Não sei se é uma anotação de quem copiou os valores ou de quem os pagou. É possível que sejam a mesma pessoa. O papel está manchado de gordura no canto inferior esquerdo; presumo que ficou perto de uma cozinha em algum momento da sua vida.
Almocei no banco do costume, junto ao Mondego. O rio estava baixo para agosto, ou assim me pareceu. Levei um romance policial que não estou a conseguir acabar.
À tarde, voltei à caixa. Há ali um registo de óbitos de 1832 que me inquieta — o número de entradas por semana sobe de forma brusca em julho e agosto, sem qualquer anotação explicativa. Seria cólera? Ao que tudo indica, houve surtos em várias regiões do país nesse período, mas não posso afirmar que foi isso sem cruzar com outra fonte. Fica por confirmar.
Deixei o assento da Joanna — com dois ene — em cima da mesa para amanhã. Não sei bem porquê.
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