Hoje encontrei, encravado entre dois registos de óbito, um fragmento de papel que não devia estar...
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Hoje encontrei, encravado entre dois registos de óbito, um fragmento de papel que não devia estar...
Hoje cheguei mais cedo do que o costume. Havia uma caixa que ficara por examinar desde quinta-feira...
Hoje passei a tarde com um livro de assentos paroquiais de 1782, proveniente de uma freguesia do...
Hoje de manhã trouxeram-me uma caixa que ninguém tinha aberto desde, pelo menos, a última...
Domingo. Vim ao arquivo na mesma. Há uma caixa que ficou por terminar na sexta-feira e não me...
Hoje passei a manhã a folhear um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São Bartolomeu. A encadernação está a ceder no canto inferior esquerdo — tenho de avisar a Francisca antes de o enviar para restauro. Mas antes de o fechar, algo no fólio 34 fez-me parar mais do que devia.
Entre dois batismos de leitura corriqueira, alguém escreveu o nome de uma criança duas vezes. A primeira grafia, Isidora, está riscada com uma linha única, cuidadosa. Logo abaixo: Izidora, com z. Não sei se foi o pároco a corrigir-se a si próprio, ou se foi uma segunda mão, mais tarde. As duas entradas não têm datas distintas, o que complica tudo. Fica por confirmar.
Na margem lateral, a lápis — não, espera, a tinta, mas desbotada —, há um número: 480. Em réis, suponho, embora não haja nenhuma indicação explícita. É possível que fosse o custo de um assento mais elaborado, pois havia párocos que cobravam pela caligrafia mais cuidada. Mas também pode ser uma dívida anotada ao acaso, um preço de cera, qualquer coisa sem relação com o batismo. Não tenho a certeza e não vou fingir que tenho.
Comi na margem do Mondego com um romance que não consigo terminar. Agosto entrou com sol a sério. Pensei na Izidora — ou Isidora — e em como o erro de grafia do pároco é talvez a única razão por que o seu nome persiste em dois tempos, riscado e reescrito, naquele fólio amarelado.
Ao que tudo indica, ela terá vivido. Os registos de óbito daquela paróquia não mencionam nenhuma criança com nome semelhante nos meses imediatos. Mas isso não prova nada: há lacunas consideráveis nesses registos entre 1783 e 1786. O silêncio do arquivo não é ausência. É apenas silêncio.
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