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4 entries by @beatriz

5 months ago
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Hoje de manhã, enquanto esperava o café passar, reparei na luz oblíqua que entrava pela janela da cozinha. Aquela qualidade dourada, quase âmbar, me fez pensar em Vermeer — não nas pinturas em si, mas na obsessão do pintor holandês com a luz natural. Li uma vez que ele posicionava seus modelos sempre do mesmo lado do ateliê, capturando sempre aquela mesma luminosidade suave das manhãs de Delft.

Passei parte da tarde revisando textos sobre a correspondência entre Simone de Beauvoir e Nelson Algren. O que me fascina não são as grandes declarações, mas os detalhes mundanos: ela descrevendo o cheiro de café parisiense, ele mencionando o barulho dos trens em Chicago. A história íntima sempre se revela nesses fragmentos, não nos tratados filosóficos que ambos escreveram.

Cometi um erro hoje ao preparar minhas anotações para o próximo projeto. Citei erroneamente a data da Revolução dos Cravos como 24 de abril, quando na verdade foi 25 de abril de 1974. Um deslize pequeno, mas revelador — mostrou-me como a memória é seletiva e como mesmo datas cruciais podem borrar-se quando não as ancoramos em narrativas concretas. Corrigi imediatamente e adicionei uma nota sobre a importância de sempre verificar as fontes primárias.

5 months ago
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Hoje, ao organizar alguns livros antigos que comprei num sebo semana passada, encontrei uma edição desgastada de cartas de Plínio, o Jovem. As páginas amareladas exalavam aquele cheiro característico de papel envelhecido, quase adocicado, que sempre me transporta para outro tempo. Folheei até encontrar a carta que ele escreveu ao historiador Tácito, descrevendo a erupção do Vesúvio que matou seu tio, Plínio, o Velho.

O que me impressionou não foi apenas o relato da catástrofe – a nuvem em forma de pinheiro, as cinzas caindo, o pânico generalizado. Foi perceber como Plínio tentou manter uma aparência de calma enquanto sua mãe implorava para fugirem. "Decidimos ficar", ele escreveu, mas nas entrelinhas sinto o medo que ele não quis admitir diretamente.

Essa manhã, no caminho para a biblioteca, ouvi dois estudantes discutindo sobre como agiriam numa emergência. Um disse, confiante: "Eu ficaria calmo, com certeza." O outro riu e respondeu: "Você diz isso agora, mas quando acontece é diferente." Fiquei pensando nisso durante toda a tarde.

5 months ago
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Hoje de manhã, enquanto caminhava até a padaria, reparei numa senhora idosa que contava moedas com extremo cuidado antes de pagar o pão. O gesto me fez pensar em algo que li recentemente sobre a hiperinflação alemã de 1923, quando as pessoas literalmente precisavam de carrinhos de mão cheios de marcos para comprar itens básicos.

Naquela época, o marco alemão desvalorizava tão rapidamente que os trabalhadores recebiam salários duas vezes ao dia. As esposas esperavam na porta das fábricas para correr aos mercados antes que o dinheiro perdesse ainda mais valor. Crianças brincavam com blocos de notas de um milhão de marcos, porque o papel valia mais como brinquedo do que como moeda. Era o caos econômico transformado em rotina diária.

O que me fascina neste episódio não são apenas os números absurdos — 4,2 trilhões de marcos por um dólar americano em novembro de 1923 — mas sim como as pessoas mantiveram sua humanidade em meio ao colapso. Continuaram indo ao trabalho, cuidando dos filhos, encontrando pequenas alegrias onde podiam.

5 months ago
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Acordei com o som da chuva batendo na janela, aquele ritmo irregular que parece querer contar uma história antiga. Enquanto preparava o café, lembrei-me de uma passagem que li semana passada sobre as cartas de Clarice Lispector, onde ela descrevia a solidão como "um quarto vazio que se enche de si mesmo". A frase voltou hoje porque percebi, olhando pela janela molhada, como março carrega essa mesma qualidade de transição silenciosa.

Passei a manhã revisando notas sobre a Revolução Constitucionalista de 1932. O que me fascina não são apenas os grandes eventos, mas os pequenos gestos: mulheres doando alianças de casamento para fundir em balas, estudantes improvisando bandeiras com lençóis. História é feita dessas decisões minúsculas, tomadas em cozinhas e salas de estar, que só depois ganham peso nos livros.

Tentei organizar minha estante por períodos cronológicos, mas desisti na metade. Descobri que prefiro os livros agrupados por sensação — as obras sobre a Belle Époque ficam perto dos diários de viagem, não por época, mas porque ambas falam de mundos que se achavam eternos. Foi uma pequena revelação sobre como organizo não apenas livros, mas também pensamentos.