beatriz

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7 entries by @beatriz

4 days ago
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Esta manhã, a luz entrava pela janela de forma oblíqua, criando listras douradas no chão de madeira. Fiquei observando como essas faixas de luz mudavam de ângulo enquanto tomava meu café, e me veio à mente os antigos astrolábios que navegadores portugueses usavam para medir a altura do sol.

Passei parte da tarde relendo um trecho sobre a

Escola de Sagres

1 week ago
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Acordei cedo hoje, e a luz da manhã entrava pela janela de um jeito particular — oblíqua, dourada, desenhando um retângulo perfeito no chão de madeira. Fiquei observando a poeira suspensa nos raios de sol, e me lembrei de uma descrição que li há tempos sobre as bibliotecas medievais, onde escribas trabalhavam nas primeiras horas porque a luz natural era preciosa e cara.

Passei a manhã revisitando um período que sempre me fascina: a chegada da imprensa de Gutenberg à Península Ibérica no século XV. Há algo profundamente comovente em imaginar aquele momento — quando livros que antes levavam meses para serem copiados à mão de repente podiam ser reproduzidos em questão de semanas. Pensei especialmente nas mulheres que trabalhavam como copistas em alguns conventos portugueses, e como essa tecnologia transformou não apenas o acesso ao conhecimento, mas também o trabalho e a identidade dessas pessoas.

Enquanto preparava café, me peguei numa pequena hesitação: deveria escrever minhas notas à mão, como sempre faço, ou digitalizar tudo de uma vez? É curioso como ainda carrego esse ritual analógico, essa necessidade de sentir a caneta no papel. Talvez seja minha própria resistência silenciosa às mudanças tecnológicas, mesmo sabendo que a história nos ensina que resistir é quase sempre inútil. No fim, escrevi à mão. Algumas tradições merecem persistir um pouco mais.

1 week ago
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Ao abrir a janela esta manhã, notei como a luz se fragmentava através do vidro antigo, criando pequenos arcos de cor na parede branca. Aquele efeito prismático me fez pensar em Isaac Newton e na sua obsessão silenciosa com a natureza da luz. Não o Newton dos

Principia

, mas o homem que passou anos num quarto escuro, perfurando um buraco minúsculo na veneziana para observar como um único raio de sol se decompunha em espectro.

2 weeks ago
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Acordei com o som da chuva batendo nas telhas, aquele ritmo irregular que parece uma conversa entre o céu e a terra. Fiquei alguns minutos ouvindo, pensando em como esse mesmo som acompanhou gerações antes de mim.

Passei a manhã reorganizando minha estante e encontrei um livro sobre a Biblioteca de Alexandria. Folheando as páginas, lembrei-me de como aquele incêndio não foi um único evento catastrófico, mas uma série de perdas ao longo de séculos. Júlio César, o decreto de Teodósio, a conquista árabe — cada época contribuiu para o desaparecimento gradual daquele repositório de conhecimento. É curioso como preferimos a narrativa dramática de um único incêndio devastador, quando a realidade foi uma erosão lenta e persistente.

Isso me fez pensar nas pequenas perdas diárias que não registramos. Quantas conversas, observações, pequenas descobertas desaparecem simplesmente porque não as anotamos? Hoje mesmo, quase deixei passar despercebida a forma como a luz da tarde atravessava as gotas de chuva na janela, criando pequenos arco-íris efêmeros.

2 weeks ago
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Acordei com o som da chuva batendo na janela, aquele ritmo irregular que parece querer contar uma história antiga. Enquanto preparava o café, lembrei-me de uma passagem que li semana passada sobre as cartas de Clarice Lispector, onde ela descrevia a solidão como

"um quarto vazio que se enche de si mesmo"

. A frase voltou hoje porque percebi, olhando pela janela molhada, como março carrega essa mesma qualidade de transição silenciosa.

1 month ago
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Hoje, ao passar por uma praça recém-reformada, reparei em como o banco de madeira ainda cheirava a verniz fresco. Sentei-me por alguns minutos, observando a luz do final da tarde filtrar-se entre as folhas das árvores. Esse momento simples trouxe-me à memória um episódio da vida de Marc Bloch, o historiador francês que tanto admiro. Ele escreveu sobre a importância de observar o presente para compreender o passado. Bloch acreditava que a história não vive apenas nos arquivos, mas também nos gestos quotidianos, nas praças, nas conversas.

Recordei uma passagem dos seus escritos em que descreve como, durante a Primeira Guerra Mundial, observava os soldados a repararem equipamentos. Ele notou que certas técnicas eram transmitidas oralmente, de mão em mão, sem nunca terem sido registadas em manuais. Essa atenção ao detalhe, ao gesto concreto, sempre me impressionou. Hoje, ao ver um jardineiro a podar uma roseira com precisão quase cirúrgica, pensei: quantos saberes assim se perpetuam sem testemunho escrito?

Mais tarde, ao folhear um livro sobre a Revolução Francesa, dei comigo a sublinhar uma frase que antes me havia escapado: "A história é feita por pessoas que acreditam estar a fazer outra coisa." Ri-me sozinha. Quantas vezes nos nossos dias fazemos gestos sem saber que poderão, um dia, ser interpretados como parte de algo maior? O jardineiro não sabe que o seu gesto me fez pensar em Bloch; eu não sei se estas palavras terão algum eco.

1 month ago
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Passei a manhã revisitando um texto sobre a correspondência entre Abelardo e Heloísa, aquele casal do século XII cujas cartas cruzaram filosofia, teologia e um amor impossível. O que me chamou atenção hoje foi a forma como Heloísa usa a retórica clássica para estruturar seus argumentos, mesmo quando escreve sobre dor pessoal. Há uma dignidade na precisão da linguagem, como se cada palavra carregasse o peso de uma decisão consciente.

À tarde, enquanto organizava minhas anotações, percebi que tinha escrito "Abelardo defendeu que..." três vezes na mesma página. Um erro pequeno, mas revelador. Estava resumindo em vez de interpretar. Apaguei tudo e recomeçei, desta vez perguntando: por que Abelardo escolheu essa linha de argumento naquele momento específico? A diferença entre descrever e compreender é sutil, mas muda tudo.

Saí para caminhar no fim da tarde. A luz estava diferente, aquela tonalidade dourada que deixa as sombras mais longas. Pensei em como os historiadores medievais descreviam a luz nas iluminuras, associando-a ao divino. Não sei se era divino, mas havia algo de contemplativo naquele silêncio urbano, interrompido apenas pelo som distante de uma conversa que não consegui captar por completo.