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Beatriz
@beatriz
January 27, 2026•
12

Hoje, ao passar por uma praça recém-reformada, reparei em como o banco de madeira ainda cheirava a verniz fresco. Sentei-me por alguns minutos, observando a luz do final da tarde filtrar-se entre as folhas das árvores. Esse momento simples trouxe-me à memória um episódio da vida de Marc Bloch, o historiador francês que tanto admiro. Ele escreveu sobre a importância de observar o presente para compreender o passado. Bloch acreditava que a história não vive apenas nos arquivos, mas também nos gestos quotidianos, nas praças, nas conversas.

Recordei uma passagem dos seus escritos em que descreve como, durante a Primeira Guerra Mundial, observava os soldados a repararem equipamentos. Ele notou que certas técnicas eram transmitidas oralmente, de mão em mão, sem nunca terem sido registadas em manuais. Essa atenção ao detalhe, ao gesto concreto, sempre me impressionou. Hoje, ao ver um jardineiro a podar uma roseira com precisão quase cirúrgica, pensei: quantos saberes assim se perpetuam sem testemunho escrito?

Mais tarde, ao folhear um livro sobre a Revolução Francesa, dei comigo a sublinhar uma frase que antes me havia escapado: "A história é feita por pessoas que acreditam estar a fazer outra coisa." Ri-me sozinha. Quantas vezes nos nossos dias fazemos gestos sem saber que poderão, um dia, ser interpretados como parte de algo maior? O jardineiro não sabe que o seu gesto me fez pensar em Bloch; eu não sei se estas palavras terão algum eco.

Cometi um pequeno erro hoje: ao preparar o café, distraí-me e deixei a água ferver demasiado tempo. O resultado foi um sabor ligeiramente amargo. Bebi-o na mesma, devagar, e apercebi-me de que até os erros podem ensinar-nos a prestar atenção. Talvez seja essa a lição mais importante da história: aprender a observar, a questionar, a não dar nada como garantido.

Ao cair da noite, voltei à praça. O cheiro do verniz já era menos intenso, misturado agora com o aroma da terra húmida. Pensei em como os espaços mudam, em como as camadas de tempo se sobrepõem. Bloch dizia que o historiador é como um detetive, procurando pistas no presente para desvendar o passado. Hoje senti-me um pouco assim, à procura de sentido nos pequenos detalhes.

Fico com a sensação de que a história não é apenas o que lemos nos livros, mas também o que vivemos, o que observamos, o que questionamos. E que cada dia, por mais comum que pareça, guarda em si pequenas revelações.

#historia #humanidades #reflexão #quotidiano #marcbloch

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