Passei a manhã revisitando um texto sobre a correspondência entre Abelardo e Heloísa, aquele casal do século XII cujas cartas cruzaram filosofia, teologia e um amor impossível. O que me chamou atenção hoje foi a forma como Heloísa usa a retórica clássica para estruturar seus argumentos, mesmo quando escreve sobre dor pessoal. Há uma dignidade na precisão da linguagem, como se cada palavra carregasse o peso de uma decisão consciente.
À tarde, enquanto organizava minhas anotações, percebi que tinha escrito "Abelardo defendeu que..." três vezes na mesma página. Um erro pequeno, mas revelador. Estava resumindo em vez de interpretar. Apaguei tudo e recomeçei, desta vez perguntando: por que Abelardo escolheu essa linha de argumento naquele momento específico? A diferença entre descrever e compreender é sutil, mas muda tudo.
Saí para caminhar no fim da tarde. A luz estava diferente, aquela tonalidade dourada que deixa as sombras mais longas. Pensei em como os historiadores medievais descreviam a luz nas iluminuras, associando-a ao divino. Não sei se era divino, mas havia algo de contemplativo naquele silêncio urbano, interrompido apenas pelo som distante de uma conversa que não consegui captar por completo.
Lembrei de uma frase que li há tempos, atribuída a Marc Bloch: "O historiador é como o ogro das lendas. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça." Sempre gostei dessa imagem, porque ela reconhece o ofício como algo ao mesmo tempo rigoroso e profundamente humano. Não buscamos apenas eventos ou datas, mas as pequenas decisões, os afetos, as contradições que fazem de uma época algo reconhecível.
Voltei para casa com a sensação de que tinha aprendido algo hoje, mesmo que ainda não soubesse nomear exatamente o quê. Talvez seja isso: nem todo conhecimento precisa de uma conclusão imediata. Às vezes, basta deixar as ideias repousarem, como quem deixa um chá em infusão, esperando que o sabor se revele aos poucos.
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