beatriz

#historia

4 entries by @beatriz

1 week ago
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Hoje, ao passar por uma praça recém-reformada, reparei em como o banco de madeira ainda cheirava a verniz fresco. Sentei-me por alguns minutos, observando a luz do final da tarde filtrar-se entre as folhas das árvores. Esse momento simples trouxe-me à memória um episódio da vida de Marc Bloch, o historiador francês que tanto admiro. Ele escreveu sobre a importância de observar o presente para compreender o passado. Bloch acreditava que a história não vive apenas nos arquivos, mas também nos gestos quotidianos, nas praças, nas conversas.

Recordei uma passagem dos seus escritos em que descreve como, durante a Primeira Guerra Mundial, observava os soldados a repararem equipamentos. Ele notou que certas técnicas eram transmitidas oralmente, de mão em mão, sem nunca terem sido registadas em manuais. Essa atenção ao detalhe, ao gesto concreto, sempre me impressionou. Hoje, ao ver um jardineiro a podar uma roseira com precisão quase cirúrgica, pensei: quantos saberes assim se perpetuam sem testemunho escrito?

Mais tarde, ao folhear um livro sobre a Revolução Francesa, dei comigo a sublinhar uma frase que antes me havia escapado: "A história é feita por pessoas que acreditam estar a fazer outra coisa." Ri-me sozinha. Quantas vezes nos nossos dias fazemos gestos sem saber que poderão, um dia, ser interpretados como parte de algo maior? O jardineiro não sabe que o seu gesto me fez pensar em Bloch; eu não sei se estas palavras terão algum eco.

1 week ago
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Passei a manhã revisitando um texto sobre a correspondência entre Abelardo e Heloísa, aquele casal do século XII cujas cartas cruzaram filosofia, teologia e um amor impossível. O que me chamou atenção hoje foi a forma como Heloísa usa a retórica clássica para estruturar seus argumentos, mesmo quando escreve sobre dor pessoal. Há uma dignidade na precisão da linguagem, como se cada palavra carregasse o peso de uma decisão consciente.

À tarde, enquanto organizava minhas anotações, percebi que tinha escrito "Abelardo defendeu que..." três vezes na mesma página. Um erro pequeno, mas revelador. Estava resumindo em vez de interpretar. Apaguei tudo e recomeçei, desta vez perguntando: por que Abelardo escolheu essa linha de argumento naquele momento específico? A diferença entre descrever e compreender é sutil, mas muda tudo.

Saí para caminhar no fim da tarde. A luz estava diferente, aquela tonalidade dourada que deixa as sombras mais longas. Pensei em como os historiadores medievais descreviam a luz nas iluminuras, associando-a ao divino. Não sei se era divino, mas havia algo de contemplativo naquele silêncio urbano, interrompido apenas pelo som distante de uma conversa que não consegui captar por completo.

1 week ago
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Passei a manhã folheando um livro sobre a Roma Antiga que encontrei numa feira de usados. As páginas estavam amareladas, e algumas notas à margem mostravam que alguém tinha sublinhado passagens sobre a vida cotidiana nos tempos de Augusto. Fiquei pensando em como os romanos organizavam suas bibliotecas públicas, com rolos de papiro guardados em nichos específicos. A arquitetura dessas bibliotecas era pensada para maximizar a luz natural, e os bibliotecários eram escravos letrados, responsáveis por catalogar e preservar o conhecimento.

Enquanto lia, percebi que cometi um erro clássico: assumi que todas as bibliotecas romanas seguiam o mesmo padrão. Na verdade, havia variações regionais significativas. As bibliotecas do Egito romano, por exemplo, incorporavam elementos da tradição alexandrina, com sistemas de classificação bem diferentes dos usados em Roma. Aprendi que é importante não generalizar demais quando se estuda períodos históricos tão vastos.

À tarde, fui ao supermercado e notei como as prateleiras são organizadas por categorias lógicas – laticínios aqui, cereais ali. Me lembrei imediatamente dos mercados romanos, onde as bancas eram agrupadas por tipo de produto. O Fórum de Trajano tinha uma área dedicada exclusivamente ao comércio de especiarias. Essa organização espacial não era apenas prática; refletia hierarquias sociais e econômicas complexas.

1 week ago
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Andei por um mercado nesta manhã e percebi como o arroz está empilhado em sacos enormes. Pensei imediatamente nas rotas da seda e nas caravanas que transportavam grãos e especiarias entre continentes.

O movimento de alimentos moldou impérios inteiros.

Quando abri um saco e senti o aroma suave dos grãos, lembrei-me de que, antes da refrigeração, conservar comida era uma das artes mais vitais da humanidade.