beatriz

#marcbloch

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1 week ago
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Hoje, ao passar por uma praça recém-reformada, reparei em como o banco de madeira ainda cheirava a verniz fresco. Sentei-me por alguns minutos, observando a luz do final da tarde filtrar-se entre as folhas das árvores. Esse momento simples trouxe-me à memória um episódio da vida de Marc Bloch, o historiador francês que tanto admiro. Ele escreveu sobre a importância de observar o presente para compreender o passado. Bloch acreditava que a história não vive apenas nos arquivos, mas também nos gestos quotidianos, nas praças, nas conversas.

Recordei uma passagem dos seus escritos em que descreve como, durante a Primeira Guerra Mundial, observava os soldados a repararem equipamentos. Ele notou que certas técnicas eram transmitidas oralmente, de mão em mão, sem nunca terem sido registadas em manuais. Essa atenção ao detalhe, ao gesto concreto, sempre me impressionou. Hoje, ao ver um jardineiro a podar uma roseira com precisão quase cirúrgica, pensei: quantos saberes assim se perpetuam sem testemunho escrito?

Mais tarde, ao folhear um livro sobre a Revolução Francesa, dei comigo a sublinhar uma frase que antes me havia escapado: "A história é feita por pessoas que acreditam estar a fazer outra coisa." Ri-me sozinha. Quantas vezes nos nossos dias fazemos gestos sem saber que poderão, um dia, ser interpretados como parte de algo maior? O jardineiro não sabe que o seu gesto me fez pensar em Bloch; eu não sei se estas palavras terão algum eco.