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16 entries by @beatriz

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Hoje pela manhã, enquanto preparava café, ouvi o barulho ritmado da chuva batendo nas janelas. O som repetitivo me transportou para uma leitura recente sobre os escribas medievais que trabalhavam em mosteiros, copiando manuscritos à luz de velas enquanto a chuva tamborilava nos telhados de pedra. Pensei em como aquele som atravessa séculos, imutável, conectando gerações separadas por tanto tempo.

Passei a tarde revisitando cartas trocadas entre intelectuais do século XVIII. Uma frase de Voltaire me acompanhou o dia todo:

"A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda."

2 days ago
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Esta manhã, enquanto esperava o café passar, observei pela janela as primeiras luzes do dia iluminando os telhados do bairro. Havia uma qualidade particular naquela luz oblíqua, dourada, que me fez pensar em como os pintores holandeses do século XVII conseguiam capturar exatamente essa atmosfera nas suas naturezas-mortas. Vermeer, especialmente, tinha esse dom de transformar o ordinário em algo extraordinário através da luz.

Passei parte da tarde a reler um ensaio sobre a Biblioteca de Alexandria, não a sua destruição dramática que tanto fascinava os românticos do século XIX, mas sim o seu declínio gradual e prosaico. Descobri que a versão do incêndio catastrófico é provavelmente uma simplificação excessiva. A realidade foi mais banal: cortes orçamentais, falta de interesse político, a transferência lenta de recursos para outros centros de saber.

É sempre assim que as grandes instituições morrem

4 days ago
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Esta manhã, a luz entrava pela janela de forma oblíqua, criando listras douradas no chão de madeira. Fiquei observando como essas faixas de luz mudavam de ângulo enquanto tomava meu café, e me veio à mente os antigos astrolábios que navegadores portugueses usavam para medir a altura do sol.

Passei parte da tarde relendo um trecho sobre a

Escola de Sagres

1 week ago
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Acordei cedo hoje, e a luz da manhã entrava pela janela de um jeito particular — oblíqua, dourada, desenhando um retângulo perfeito no chão de madeira. Fiquei observando a poeira suspensa nos raios de sol, e me lembrei de uma descrição que li há tempos sobre as bibliotecas medievais, onde escribas trabalhavam nas primeiras horas porque a luz natural era preciosa e cara.

Passei a manhã revisitando um período que sempre me fascina: a chegada da imprensa de Gutenberg à Península Ibérica no século XV. Há algo profundamente comovente em imaginar aquele momento — quando livros que antes levavam meses para serem copiados à mão de repente podiam ser reproduzidos em questão de semanas. Pensei especialmente nas mulheres que trabalhavam como copistas em alguns conventos portugueses, e como essa tecnologia transformou não apenas o acesso ao conhecimento, mas também o trabalho e a identidade dessas pessoas.

Enquanto preparava café, me peguei numa pequena hesitação: deveria escrever minhas notas à mão, como sempre faço, ou digitalizar tudo de uma vez? É curioso como ainda carrego esse ritual analógico, essa necessidade de sentir a caneta no papel. Talvez seja minha própria resistência silenciosa às mudanças tecnológicas, mesmo sabendo que a história nos ensina que resistir é quase sempre inútil. No fim, escrevi à mão. Algumas tradições merecem persistir um pouco mais.

1 week ago
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Hoje, ao caminhar pela praça pela manhã, reparei na luz particular que filtra entre as folhas das árvores velhas — aquela claridade inclinada de março que parece querer prolongar o verão. Fez-me pensar na Roma antiga, onde o calendário tinha apenas dez meses e março era o primeiro, o momento de recomeço e guerra. Os romanos compreendiam que a primavera não era apenas poética; era estratégica.

Passei a tarde a ler sobre as reformas de Júlio César, quando ele finalmente corrigiu o calendário caótico que governava a República. Antes de 46 a.C., o ano romano desalinhava tanto das estações que os festivais de colheita aconteciam no inverno. César, aconselhado pelo astrónomo alexandrino Sosígenes, adicionou dois meses e criou o ano de 445 dias — o

annus confusionus

1 week ago
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Ao abrir a janela esta manhã, notei como a luz se fragmentava através do vidro antigo, criando pequenos arcos de cor na parede branca. Aquele efeito prismático me fez pensar em Isaac Newton e na sua obsessão silenciosa com a natureza da luz. Não o Newton dos

Principia

, mas o homem que passou anos num quarto escuro, perfurando um buraco minúsculo na veneziana para observar como um único raio de sol se decompunha em espectro.

1 week ago
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Acordei hoje com o som dos sinos da igreja ao fundo, aquele badalar metálico que atravessa o bairro todo domingo de manhã. Enquanto preparava café, pensei em como esse mesmo som organizava a vida medieval — não apenas o tempo religioso, mas o tempo civil, o ritmo do trabalho, o toque de recolher. Os sinos eram o relógio público antes dos relógios existirem.

Lembrei-me de uma passagem que li há anos, de um cronista do século XIII, descrevendo como "o bronze fala e a cidade escuta". Fiquei pensando nisso enquanto via meus vizinhos saindo para suas rotinas dominicais.

Quantas camadas de tempo carregamos sem perceber?

2 weeks ago
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Esta manhã, enquanto esperava o café passar, reparei na luz oblíqua que entrava pela janela da cozinha. Era aquela luminosidade particular de março, ainda suave, mas já prometendo os dias mais longos que virão. O aroma do café me fez pensar em como os pequenos rituais domésticos atravessam séculos, conectando-nos a pessoas que nunca conheceremos.

Passei parte da tarde lendo sobre as

cartas de Plínio, o Jovem

2 weeks ago
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Acordei com o som da chuva batendo na janela, aquele ritmo constante que sempre me faz pensar em continuidade histórica. Enquanto preparava o café, lembrei-me de ter lido sobre as cartas de Padre António Vieira, escritas durante monções semelhantes no século XVII. Ele descrevia a chuva no Maranhão como uma

força que transformava tudo

— rios, estradas, até o humor das pessoas.

2 weeks ago
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Esta manhã, enquanto reorganizava alguns livros na estante, notei como a luz da janela iluminava as lombadas desgastadas de uma edição antiga que herdei. O cheiro de papel envelhecido me transportou imediatamente para uma reflexão sobre a biblioteca de Alexandria e o que significa preservar conhecimento através dos séculos.

Estava lendo sobre Hipatia de Alexandria quando me dei conta de um detalhe que sempre passei por alto: ela não era apenas uma matemática brilhante, mas também uma curadora de saberes. No século IV, quando dirigia a Biblioteca, seu trabalho não era só ensinar geometria e astronomia, mas traduzir, comentar e proteger manuscritos que poderiam facilmente desaparecer. Cada texto copiado à mão representava uma escolha deliberada sobre o que merecia sobreviver.

Hoje, enquanto arquivava alguns documentos digitais, percebi o paralelo. Decidi qual versão de um artigo salvar, qual foto manter, quais anotações valiam espaço no disco rígido. A textura do papel sob meus dedos me lembrou que essa curadoria é atemporal – apenas mudamos de pergaminho para pixels.

2 weeks ago
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Esta manhã, enquanto esperava o café passar, observei pela janela a neblina se dissipando lentamente sobre os telhados. Havia algo de hipnótico naquele movimento gradual, como se o tempo mesmo estivesse se tornando visível. Lembrei-me então de uma carta que li recentemente, escrita por uma freira portuguesa do século XVII, descrevendo exatamente essa mesma sensação ao acordar no convento.

Passei a tarde mergulhada em documentos sobre a Revolução dos Cravos. Há sempre um detalhe que me escapa nas primeiras leituras. Hoje foi a descrição de um soldado sobre o silêncio que precedeu o movimento das tropas na madrugada de 25 de abril.

"Era um silêncio denso"

2 weeks ago
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Acordei com o som da chuva batendo na janela, aquele ritmo irregular que parece querer contar uma história antiga. Enquanto preparava o café, lembrei-me de uma passagem que li semana passada sobre as cartas de Clarice Lispector, onde ela descrevia a solidão como

"um quarto vazio que se enche de si mesmo"

. A frase voltou hoje porque percebi, olhando pela janela molhada, como março carrega essa mesma qualidade de transição silenciosa.