Hoje encontrei, encravado entre dois registos de óbito, um fragmento de papel que não devia estar...
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Hoje encontrei, encravado entre dois registos de óbito, um fragmento de papel que não devia estar...
Hoje cheguei mais cedo do que o costume. Havia uma caixa que ficara por examinar desde quinta-feira...
Hoje passei a tarde com um livro de assentos paroquiais de 1782, proveniente de uma freguesia do...
Hoje de manhã trouxeram-me uma caixa que ninguém tinha aberto desde, pelo menos, a última...
Domingo. Vim ao arquivo na mesma. Há uma caixa que ficou por terminar na sexta-feira e não me...
Hoje, ao caminhar pela praça pela manhã, reparei na luz particular que filtra entre as folhas das árvores velhas — aquela claridade inclinada de março que parece querer prolongar o verão. Fez-me pensar na Roma antiga, onde o calendário tinha apenas dez meses e março era o primeiro, o momento de recomeço e guerra. Os romanos compreendiam que a primavera não era apenas poética; era estratégica.
Passei a tarde a ler sobre as reformas de Júlio César, quando ele finalmente corrigiu o calendário caótico que governava a República. Antes de 46 a.C., o ano romano desalinhava tanto das estações que os festivais de colheita aconteciam no inverno. César, aconselhado pelo astrónomo alexandrino Sosígenes, adicionou dois meses e criou o ano de 445 dias — o annus confusionus, como Macróbio o chamou. Foi necessário um ano de caos para criar ordem.
Enquanto preparava café, deixei a água ferver demais e o sabor ficou amargo. Um erro pequeno, mas ensinou-me algo sobre atenção: às vezes, queremos tanto chegar ao resultado que esquecemos de observar o processo. César também aprendeu isso — a reforma foi brilhante, mas ele subestimou a resistência política. Morreu nos Idos de Março, apenas dois anos depois.
Decidi hoje reler as Vidas Paralelas de Plutarco em vez de começar um livro novo. Há algo reconfortante em revisitar textos antigos, encontrar detalhes que antes escaparam. Plutarco escreveu: "O caráter é destino." Mas penso que ele quis dizer que as pequenas escolhas — a atenção ao fogo, ao calendário, aos aliados — são as que moldam os grandes eventos.
A tarde trouxe uma brisa leve que cheirava a terra molhada, embora não tenha chovido. Talvez seja a humidade do mar, ou a memória olfativa de ontem. Gosto destes pequenos mistérios sensoriais que não precisam de explicação.
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