Hoje de manhã trouxeram-me uma caixa que ninguém tinha aberto desde, pelo menos, a última reorganização do fundo — 1987, segundo a etiqueta desbotada. Dentro, entre folhas de papel pardo, estava um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de Santa Cruz. A encadernação estava solta num dos cantos, com aquele cheiro de humidade antiga que não é exatamente mau — é apenas velho.
Folheei com luvas de algodão, devagar. Na margem de um assento de óbito, alguém escreveu a lápis — ou o que parece lápis, já muito apagado — um número: 240 réis. Não há contexto imediato. O óbito era de uma mulher chamada Mariana, "de ofício costureira", falecida em março desse ano. Suponho que o número se refira a alguma despesa — talvez o custo do enterro simples, ou de um tecido para amortalhá-la —, mas não tenho como confirmar. Fica por saber de quem era a letra.
O que mais me prendeu foi o nome. Está escrito duas vezes no mesmo assento: primeiro "Marianna", depois riscado com cuidado e corrigido para "Mariana". Quem corrigiu? O pároco, a posteriori? Um escrivão diferente? Ao que parece, havia alguém preocupado com a grafia — detalhe pequeno e sem consequência maior, exceto que agora sei que Mariana existiu, que alguém se deu ao trabalho de acertar o nome, e que 240 réis ficaram anotados junto ao dia em que morreu.