beatriz

#diariodearquivista

4 entries by @beatriz

4 days ago
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Segunda-feira. Passei a manhã a folhear um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São João de Santa Cruz, à procura de uma data de baptismo que um investigador externo jura encontrar ali. Não encontrei. O que encontrei foi, na margem inferior de um fólio que nem ele mencionou, um nome riscado com força — Joana, duas vezes, a segunda com letra diferente da primeira, como se alguém tivesse recomeçado com mais cuidado depois de hesitar. Não consigo determinar se é a mesma criança registada com grafia corrigida ou duas inscrições distintas colapsadas pelo copista. Fica por confirmar.

A tinta nessa margem é mais clara do que a do texto principal. Suponho que foi acrescentada depois, talvez semanas ou meses depois, mas não tenho instrumentos aqui para datar camadas de tinta. Anotei a dúvida a lápis, como sempre.

Ao almoço o Mondego estava baixo para junho. Um homem pescava perto da ponte sem grande convicção. Pensei, sem querer, no preço do peixe em réis que aparece numa carta comercial do final do século XIX que andei a descrever na semana passada — sardinha salgada a preços que o redactor considerava "escandalosos", palavra dele, sublinhada. Ao que parece havia anos assim.

2 weeks ago
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Hoje cheguei mais cedo do que o habitual. A conservadora pediu que eu reordenasse uma caixa de registos paroquiais de 1782, de uma freguesia que já não existe — pelo menos não com esse nome desde meados do século XIX, quando os limites foram redesenhados. Enquanto abria o terceiro maço, encontrei um assento de óbito com uma correção feita a lápis, por cima da tinta original: onde se lia "Francisca", alguém escrevera "Franca", e depois voltara a riscar para repor o primeiro nome. Dois traços finos, um de cada vez, como se a mão tivesse hesitado. Quem corrigiu, não sei. Presumo que tenha sido o próprio pároco ou, é possível que, um familiar que reconheceu o erro — mas isto é suposição minha, nada mais.

No mesmo assento, o pai aparece como "tanoeiro". Encontrei a mesma pessoa, ao que parece, num livro de assentos de batismo do mesmo ano: aí, a profissão já é "carpinteiro". Talvez tivesse mudado de ofício entre o baptismo do filho e a morte da filha, ou talvez o escrivão tivesse simplesmente anotado mal, por indiferença ou pressa. Não tenho a certeza. A diferença de salário entre os dois ofícios devia ser considerável em 1782 — ao que me parece, mas não tenho dados concretos para essa freguesia específica. Fica por confirmar.

Comi junto ao Mondego. O rio estava alto para a época do ano. Uma criança alimentava pombos com uma bolacha inteira, peça a peça, com uma seriedade que me pareceu excessiva para a tarefa.

3 weeks ago
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Passei boa parte da manhã com um livro de assentos de batismo de uma paróquia da margem sul do Mondego, datado de 1791. O vigário desse ano tinha uma caligrafia hesitante — as letras inclinavam-se para a esquerda, o que, ao que parece, era pouco comum — e na entrada de março encontrei uma criança registada três vezes: primeiro como

Jozé

, depois riscado e corrigido para

1 month ago
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Hoje passou pelas minhas mãos um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São Bartolomeu, trazido para cotejar com um processo de inventário que chegou há duas semanas. Estava à espera de encontrar nomes e datas. Encontrei uma margem riscada — alguém tinha escrito um nome, Joana, depois riscou e escreveu Ana, e por baixo, muito miúdo, voltou a escrever Joana. Não sei o que isto significa. Talvez um engano do pároco. Talvez a criança tivesse sido registada com um nome e baptizada com outro, o que acontecia. Fica por confirmar.

O inventário que me trouxe aqui lista os bens de um escrivão de câmara que morreu sem testamento — ao que parece, de febre, em Setembro daquele ano. Entre os móveis e as dívidas há uma entrada que me deteve:

"huma porção de papel escripto, sem valor"