Hoje cheguei mais cedo do que o costume. Havia uma caixa que ficara por examinar desde quinta-feira — registos de batismo de uma freguesia rural do distrito, finais do século XVIII. Abri-a devagar, como se a pressa pudesse partir qualquer coisa. O cheiro era de mofo controlado, daquele que já não avança, mas lembra que esteve a tentar.
Na terceira folha encontrei uma criança batizada duas vezes. Não é impossível: o pároco escreveu o nome, riscou, e escreveu de novo logo abaixo. Ana primeiro, depois Anna. A data é a mesma, dezembro de 1782. Suponho que não foi batizada duas vezes, apenas registada com mais cuidado na segunda tentativa — mas fica por confirmar. Não há nota marginal que explique, e o pároco seguinte só assume o cargo três anos depois, portanto não posso perguntar-lhe nada.
O que me prendeu foi o que estava escrito em lápis no canto inferior da folha, letra diferente, quase ilegível: filha de Maria do Rosário, costureira. Alguém acrescentou isso mais tarde, fora do registo oficial. Talvez uma mão do século XIX que quis fixar o que o pároco omitiu. Que a mãe existia, que tinha um ofício, que não era apenas "esposa de".