Hoje encontrei, encravado entre dois registos de óbito, um fragmento de papel que não devia estar ali. Um livro de assentos paroquiais de 1782, paróquia de Santa Cruz — estava a colacionar datas de batismo — e de repente uma folha solta, dobrada em quatro, com uma lista de números escritos a lápis. Réis. Uma conta doméstica, ao que parece: ovos, toucinho, uma medida de azeite. Sem nome, sem data explícita. A caligrafia difere da do pároco, e o papel tem uma textura ligeiramente mais grossa. Suponho que alguém usou o livro como superfície de apoio e a folha ficou esquecida.
A lista tem seis itens. O quinto está riscado duas vezes, com uma tinta mais escura do que o lápis original — a supressão veio depois, com uma pena. É possível que não seja a mesma mão. Não consigo decifrar o que era. O lápis, aliás, está gasto nessa zona. Fica por confirmar.
Comi junto ao Mondego mais cedo do que o habitual. O livro que trago ficou fechado sobre o colo quase todo o tempo. Fiquei a pensar nas seis linhas de conta, e na pessoa que as escreveu. Quem comprou ovos numa semana de 1782 que nunca vou poder identificar. A compra foi feita, o dinheiro trocou de mão, e o papelinho sobreviveu porque alguém o esqueceu dentro de um livro de mortos.