Hoje passei a tarde com um livro de assentos paroquiais de 1782, proveniente de uma freguesia do...
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Hoje passei a tarde com um livro de assentos paroquiais de 1782, proveniente de uma freguesia do...
Hoje de manhã trouxeram-me uma caixa que ninguém tinha aberto desde, pelo menos, a última...
Domingo. Vim ao arquivo na mesma. Há uma caixa que ficou por terminar na sexta-feira e não me...
Hoje peguei num livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de Santa Cruz, que chegou para...
Hoje passei a manhã a folhear um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São...
Hoje cheguei mais cedo do que o costume. Havia uma caixa que ficara por examinar desde quinta-feira — registos de batismo de uma freguesia rural do distrito, finais do século XVIII. Abri-a devagar, como se a pressa pudesse partir qualquer coisa. O cheiro era de mofo controlado, daquele que já não avança, mas lembra que esteve a tentar.
Na terceira folha encontrei uma criança batizada duas vezes. Não é impossível: o pároco escreveu o nome, riscou, e escreveu de novo logo abaixo. Ana primeiro, depois Anna. A data é a mesma, dezembro de 1782. Suponho que não foi batizada duas vezes, apenas registada com mais cuidado na segunda tentativa — mas fica por confirmar. Não há nota marginal que explique, e o pároco seguinte só assume o cargo três anos depois, portanto não posso perguntar-lhe nada.
O que me prendeu foi o que estava escrito em lápis no canto inferior da folha, letra diferente, quase ilegível: filha de Maria do Rosário, costureira. Alguém acrescentou isso mais tarde, fora do registo oficial. Talvez uma mão do século XIX que quis fixar o que o pároco omitiu. Que a mãe existia, que tinha um ofício, que não era apenas "esposa de".
Comi junto ao Mondego com mais vento do que o esperado para outubro. Folheei um romance que não consigo acabar. Reparei que as folhas já começam a cair do lado da margem norte, mas do lado onde eu me sento ainda resistem. Não tirei nenhuma conclusão disto.
De tarde, continuei a examinar o livro de assentos. Havia um batizado em março desse mesmo ano com uma nota no canto — "pagou 40 réis de esmola" — o que indica que os 40 réis eram ainda um valor possível, não alto, não irrisório. É possível que a mãe de Anna não tenha pago nada; o registo dela não tem qualquer nota de esmola. Ao que parece, isso acontecia. Não sei se por pobreza, por favor do pároco, ou por outra razão que os documentos não guardam.
A caixa voltou para a prateleira. Tirei as luvas. As mãos cheiravam ao que sempre cheiram.
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