Passei a manhã organizando papéis antigos que encontrei no sótão da casa da minha avó. Entre cartas amareladas e recibos de décadas atrás, descobri um bilhete de trem de 1968 — um simples pedaço de cartão perfurado, mas que me transportou imediatamente para aquela época de ditaduras na América Latina.
Lembrei-me de Clarice Lispector, que naquele mesmo ano publicava A Paixão Segundo G.H. enquanto o Brasil vivia sob censura. Como ela conseguia escrever sobre a existência humana de forma tão profunda quando tudo ao redor parecia sufocar a liberdade? Fiquei pensando nisso enquanto tomava café, observando pela janela as pessoas passando livremente pela rua, falando ao telefone, rindo.
A liberdade é tão invisível quando a temos.
Tentei imaginar como seria carregar aquele bilhete no bolso, não sabendo se a viagem seria segura, se haveria revista, se uma simples conversa no vagão poderia ser mal interpretada. Cometi o erro de achar, por um momento, que isso estava muito distante de nós. Então li as notícias da tarde e percebi: a história nunca está tão longe quanto gostaríamos.
À noite, reli um trecho de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal. Não é sobre monstros, mas sobre pessoas comuns que param de pensar, que param de questionar. Isso me assustou mais do que qualquer narrativa heroica de resistência.
Fechei o caderno com uma pergunta que não consigo responder: o que eu teria feito em 1968? Gostaria de acreditar que teria sido corajosa, mas a honestidade me obriga a admitir que não sei. Talvez essa dúvida seja o começo de alguma sabedoria.
Guardei o bilhete de trem numa pasta transparente. Pequenos objetos guardam histórias enormes.
#historia #reflexao #memoria #liberdade