Hoje pela manhã, enquanto esperava o café passar, reparei na luz filtrada pela janela da cozinha — aquela qualidade dourada e oblíqua que só as manhãs de outono conseguem produzir. Por algum motivo, lembrei-me de uma passagem que li há anos sobre os escribas medievais e suas reclamações nas margens dos manuscritos. Um deles, um monge anônimo do século XII, escreveu algo como: "A luz está falhando, e também minha mão".
Fiquei pensando nessa fragilidade compartilhada através dos séculos. Aquele escriba provavelmente trabalhava ao lado de uma janela estreita, aproveitando cada minuto de luz natural antes que a escuridão tomasse conta do scriptorium. Não havia lâmpadas LED, não havia forma de prolongar o dia útil além do que a natureza permitia. E ainda assim, ele continuou. Deixou sua marca não apenas no texto que copiava, mas também naquela pequena nota de frustração que sobreviveu oitocentos anos.
Hoje temos tanta luz artificial que esquecemos como nossos ritmos costumavam ser ditados pelo sol. Mas aquela observação dele me fez perceber que ainda sinto a diferença — trabalho melhor pela manhã, quando a luz é clara e fresca. À tarde, mesmo com todas as lâmpadas acesas, algo em mim desacelera. Talvez sejamos menos diferentes daquele monge do que gostamos de pensar.