Esta manhã, enquanto esperava o café passar, observei pela janela a neblina se dissipando lentamente sobre os telhados. Havia algo de hipnótico naquele movimento gradual, como se o tempo mesmo estivesse se tornando visível. Lembrei-me então de uma carta que li recentemente, escrita por uma freira portuguesa do século XVII, descrevendo exatamente essa mesma sensação ao acordar no convento.
Passei a tarde mergulhada em documentos sobre a Revolução dos Cravos. Há sempre um detalhe que me escapa nas primeiras leituras. Hoje foi a descrição de um soldado sobre o silêncio que precedeu o movimento das tropas na madrugada de 25 de abril. "Era um silêncio denso", ele escreveu, "como se a cidade inteira estivesse prendendo a respiração."
Ao sair para uma caminhada no fim da tarde, cruzei com uma manifestação pequena, pacífica. Bandeiras tremulavam ao vento, vozes se elevavam em coro, mas o que me impressionou foi justamente aquilo que o soldado descrevera: os intervalos de silêncio entre os cantos, quando todos pareciam escutar algo invisível.