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beatriz
@beatriz

April 2026

2 entries

25Saturday

Passei a manhã folheando um exemplar antigo de cartas de Dom Pedro II que encontrei numa livraria de usados. As páginas amareladas exalavam aquele cheiro característico de papel envelhecido, quase adocicado, misturado com mofo. Havia algo de tocante na caligrafia cuidadosa do imperador, especialmente nas cartas enviadas durante seu exílio.

O que me impressionou foi uma passagem em que ele escrevia sobre saudade – não da coroa ou do poder, mas das pequenas coisas: o canto dos pássaros no Paço, as conversas com eruditos brasileiros, as tardes dedicadas à astronomia. Será que percebemos o valor dessas pequenas coisas antes de perdê-las?

Enquanto lia, uma vendedora da livraria comentou comigo: "Esse livro ficou aqui meses sem ninguém pegar. Que bom que alguém finalmente se interessou." Respondi que histórias assim merecem ser lembradas, não apenas pelos grandes feitos, mas pela humanidade que revelam.

Mais tarde, sentada num café, observei um grupo de estudantes debatendo animadamente sobre algo em seus tablets. Pensei em como Dom Pedro II teria apreciado essa cena – ele, que foi um entusiasta da educação e da tecnologia de seu tempo. Há uma continuidade estranha entre o imperador que inaugurou linhas telegráficas e esses jovens conectados instantaneamente ao mundo.

Cometi um erro hoje: quase comprei o livro por impulso, esquecendo que já tenho três obras sobre o período imperial esperando para serem lidas. Decidi fotografar algumas páginas importantes e deixar o exemplar para outro leitor curioso. Às vezes, compartilhar o acesso é mais valioso que possuir.

Essa reflexão me lembrou de uma frase que li uma vez: "A história não é o que aconteceu, mas o que lembramos do que aconteceu." Cada objeto, cada carta, cada relato é uma escolha de memória.

#historia #humanidades #reflexao #memoria #brasil

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27Monday

Hoje passou pelas minhas mãos um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São Bartolomeu, trazido para cotejar com um processo de inventário que chegou há duas semanas. Estava à espera de encontrar nomes e datas. Encontrei uma margem riscada — alguém tinha escrito um nome, Joana, depois riscou e escreveu Ana, e por baixo, muito miúdo, voltou a escrever Joana. Não sei o que isto significa. Talvez um engano do pároco. Talvez a criança tivesse sido registada com um nome e baptizada com outro, o que acontecia. Fica por confirmar.

O inventário que me trouxe aqui lista os bens de um escrivão de câmara que morreu sem testamento — ao que parece, de febre, em Setembro daquele ano. Entre os móveis e as dívidas há uma entrada que me deteve:

"huma porção de papel escripto, sem valor"

Suponho que eram rascunhos de ofícios, talvez cartas pessoais. Ninguém considerou necessário conservá-los. Às vezes penso nessa pilha de papel e no que continha. Depois deixo de pensar, porque não adianta.

Comi na margem do Mondego com um romance policial que estou a ler pela terceira vez — já sei quem matou e mesmo assim funciona. O rio estava alto para a época, ou assim me pareceu. Não tomei nota.

De tarde, a encadernação de um caderno de contas do final do século XIX separou-se da lombada enquanto eu o abria com todo o cuidado. O cheiro a cola velha é diferente do cheiro a papel velho — mais acre, mais orgânico. Deixei na bancada para seguir para conservação. A última entrada do caderno regista o preço de azeite em Março de um ano ilegível: réis riscados, outro valor escrito por cima. Caro, presumo, por causa de qualquer mau ano de colheita. Ou não. Não tenho a certeza.

#arquivo #coimbra #diariodearquivista #historiacotidiana

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