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Há muito tempo atrás, como você bem sabe, este acesso aqui para esse mundo interno era mais simples e foi iniciado por uma outra entrada para uma outra pessoa, que não é bem quem você pensa. A primeira vez que usei essa voz para me comunicar no entanto, foi para esta que você achava conhecer bem.
Apresentei para ela metáforas dessa terra, segredos que a Residente Mor não ousava compartilhar em sã consciência, — transmutar as vergonhas dela para uma forma complexa como a minha parece mais fácil para ela do que se vestir de si, mas isso você entende bem, pois a conhece. — e assim, um processo único e belo surgiu. Após muitas luas, muitas subidas e decidas de marés, enchentes terríveis e transmutações, essa terra se tornou diferente, ouso dizer que mais sincera. Estive distante, observando a Residente Mor e Aquela que você julgava conhecer, essa que inegavelmente tinha uma destreza sem igual em desvendar por si toda essa porção de universo pessoal com um toque perigosíssimo de altruísmo e abnegação, chamado por ela de amor.
Não é curioso para você as tantas vertentes de amor existentes? Não é surpreendente como desamor, quando sustentado firmemente pode ser entregue como amor?
Como estava dizendo, observei tudo, estive lá e estou aqui. Vi sua chegada cautelosa, avisei a Residente sobre o brilho dos seus olhos quando pelos dela conseguiu vislumbrar essa terra e se assustou com o estranho desejo de habitá-la, — algo que animou muito ela. — estive lá quando se assustou após entrar e como fez deste bosque seu espaço seguro e aqui permanece, compreendi que era hora de me comunicar. Ambos sabemos que a consciência profunda e secreta da Residente é extremamente transparente e simples de compreender, sabemos também que minha existência é uma extensão dela mesma mas cá entre nós é mais fácil assim. Temos o mesmo interesse, ambos amamos essa terra e ambos queremos que a Residente a explore mais, que veja o que existe, o que deixaram, o que não é bom de manter e o que seria bom de plantar e assim podemos juntos cuidar para que o acesso até aqui seja mais simples. Sei que está de acordo e se não estivesse não te deixaria ficar.
Escuto daqui seus eternos pedidos para que ela observe e acredite que ela faz, mas me permita em minha singela complexidade inventada lhe levar para um passeio, não se incomode pelo tremor repentino do solo, nem pela corrente acelerada de ventos... toda essa dramaticidade é apenas ela, a Residente, se contorcendo por saber que minha caminhada acompanhará a sinceridade nova que lava essa terra. Venha, é melhor nos adiantarmos pois as nuvens do norte se agitam nossa direção.
As trilhas aqui desse bosque estão cada vez se refinando, talvez não tenha percebido ainda mas ao mais leste de sua caverna alguns caminhos já se fizeram e se desfizeram, alguns servos derrubam galhos pela manhã e após dias ninhadas de antílopes passam correndo quebrando eles e abrindo passagem. Acho sempre curioso como boa parte dos residentes gostam de vagar por aqui mesmo com tanta terra para correr. Venha vamos cruzar o córrego e sair daqui, afinal como residente do bosque você o desvendar mais depois.
Vamos seguir esta pequena nascente, essa estreita corrente d'água nos levará para o descampado por onde você entrou nesta terra. Enquanto andamos é importante se manter atento, existem sinuosidades neste território que podem gerar eventos de crise, o ecossistema daqui é sensível e essas sinuosidades a qual me refiro não são algo único. Deixe-me te mostrar. Olhe para cima levemente — cuidado para não tropeçar em nada enquanto anda, — agora respire lentamente e cerre gentilmente os olhos, preste atenção em sua respiração e poderá ver partículas redondas se movimentando, percebe como existe uma singela luz nelas? abra seu campo de visão e perceberá como elas estão por toda parte, viu? Elas estão sempre bem embaixo do nosso nariz, nada discretas. Esses orbes de luz suave são bem reativos, são ligados diretamente á Residente Mor, ela quem produz eles e foram eles que á pouco causaram aqueles tremores, que por sua vez aceleraram os ventos, que movimentaram as nuvens carregadas do norte. Estou conversando sempre com os orbes, não se acanhe pode acariciar eles também, apesar de seus receptores serem sensíveis a tudo, eles andam aprendendo a controlar suas reações e minimizar efeitos de desastres naturais, são criaturas incríveis. Sinto que os da sua terra ainda causam um furdunço, aproveite para conversar com os orbes daqui e quem sabe eles lhe sussurram algo que seja útil.
Finalmente chegamos ao descampado, olhe, a corrente da nascente corta todo ele e se estende até o oeste, ela é um marcador natural então caso se perca por ai já sabe um marco para se guiar. Venha preciso da sua ajuda para algo importante.
Esse local muitas vezes me parece um cemitério emocional, um acúmulo desnecessário de pequenezas de antigos residentes, algumas ruínas de construções que ela começou a demolir... olhe ali um exemplo, as meias paredes quebradas do que antes já foi uma grande casinha de tijolos, essa inclusive foi a primeira construção física aqui do descampado, foi por ela que ela descobriu ser a Residente Mor e por muito tempo ela acreditava existir apenas o quarto escuro que ela estava sabia? Pergunte a ela sobre essa história depois. Enfim, por mim eu removeria tudo, mas vou te mostrar na prática o que acontece, vamos até aquele pedaço laranja de lona rasgado ali que antes já foi uma barraca; é quase irreconhecível, concordo também, acho que para isso o melhor seria queimar então irei tentar com um pequeno truque de magia e... olhe lá, esses pequenos orbes cabeçudos se grudando no trapo e o arrastando para longe, considero adorável de certo modo, eles sussurram que ainda precisam da memória da coisa e que estão aprendendo; Não se preocupe, apesar deles estarem grudados em você também eles não conseguem te carregar, os orbes aqui do descampado são mais agitados assim mesmo. Mas enfim, agora entende porque eu não posso fazer o que desejo aqui, no entanto, estive pensando e pensando e dou meu braço a torcer, te tirei do seu bosque para vir me ajudar com seu conhecimento e opinião sobre aquele jardim ali mais ao centro do descampado. Eu o acho bonito, serpenteia a corrente da nascente, essas cercas são adoráveis também e preciso admitir para você que como meu primeiro passeio guiado foi para aquela que você achava conhecer, acabei criando um certo apego ao que foi construído aqui por ela, — o que me faz entender os orbes quando quero sair por ai estalando dedos criando faíscas de apagamento — e venho vez ou outra aqui remover ervas daninhas, regar as pequenas rosas e margaridas remanescentes depois que alguns orbes do fundo do bosque violentamente morderam outras flores... foi um dia e tanto, mas enfim, pretendo ser objetivo.
Você mesmo já cuidou de partes desse jardim, já te vi diversas vezes vindo aqui cuidar de plantas doentes e também vi você criando a antiga estufa que havia aqui quando a Residente deixou de vir por aqui, sei também como aquela que você achava conhecer bem lhe feriu, eu via como vocês corriam e se divertiam por aqui; Seu tamanho a intimidou quando te viu a primeira vez, mas vou compartilhar com você que ela se assustou pela forma como você achou outro acesso a essa terra, se assustou porque tudo parecia se atrair para você; a grama parece acariciar suas patas, os orbes, independente da região possuem curiosidade e brilham mais forte ao seu redor, a brisa parece gostar de rodear seus pelos e quem você julgava conhecer bem se enciumou de certo modo, apesar do aparente altruísmo, ela vez ou outra confundia essas terras com propriedade pessoal, acordava alguns dias confusas acreditando ser a casa dela e ao te ver, se lembrou que também tinha seu próprio vale, sua própria porção de universo para cuidar. Você acalmou muitas coisas por aqui, vejo como fica ansioso para que a Residente conheça mais espaços que existem por aqui e que te leve junto e eu posso te ajudar nisso se me ajudar a lidar com esse jardim, vejo através dos seus olhos que existe alguma resposta no seu mundo, se puder ir até ele, investigar, eu acho que será proveitoso.
Esse jardim não pode ser mais nutrido, ele tomou toda a atenção para si e dele saem melodias ao entardecer que ecoam por todo vale próximo, chegam até as profundezas do bosque, atiça os orbes de lá; para além disso alguns cogumelos criados nele liberam líquidos estranhos que correm para a corrente da nascente e seguem o caminho oposto dela para chegar até o córrego do bosque e eu temo alguma intercorrência novamente. Dá ultima vez consegui controlar a criatura da profundeza do bosque, foi intenso mas ela removeu todos os espinhos, tirou a casca de roubo de nutrição das árvores e voltou a descansar. Ela é o único ser que produz orbes para além da Residente Mor, mas eles são diferentes, são alimentados por fontes diferentes, até mesmo moléculas dos ares podem os alimentar e sempre existe um movimento de atração para eles, e o jardim parece gerar uma quantidade maior de essência para eles. Eu não sei conversar com eles, e eles me drenam, apenas a Residente Mor consegue lidar com eles mesmo sem saber.
Depois de tantas metáforas, segredos e informações, acredito que nosso passeio pode se encerrar por aqui, estou sempre por aqui como bem sabe e talvez caminhemos mais por ai, estarei aguardando sua ajuda, ursinho.