Esta manhã peguei numa colher de aço para mexer o café e noutra de madeira que estava ao lado na mesma bancada há horas. Temperatura ambiente idêntica para as duas — um termómetro confirmaria isso. E ainda assim a colher de aço pareceu imediatamente mais fria ao toque.
A questão em uma linha: porque é que dois objectos à mesma temperatura provocam sensações térmicas diferentes?
A resposta está na difusividade térmica — a velocidade a que um material redistribui internamente o calor quando perturbado. Define-se como α = k/(ρ·c), onde k é a condutividade, ρ a densidade e c o calor específico. Para o aço inox, α fica na ordem de 4×10⁻⁶ m²/s; para madeira típica, perto de 1×10⁻⁷ m²/s — uma diferença de cerca de 40 vezes, amplamente aceite nos manuais de transferência de calor.
O que a minha mão sente não é a temperatura do objecto, mas o fluxo de calor que escapa da pele. No aço, o calor é drenado depressa e conduzido para longe do contacto — o gradiente mantém-se alto durante mais tempo. Na madeira, o material satura-se perto da superfície e o fluxo abranda cedo. Suponho que a sensação de "frio" é um sinal da taxa de perda de calor, não da temperatura absoluta do objecto.
Isso torna a mão um instrumento muito impreciso para medir temperatura. A área de contacto, a temperatura da pele e o material afectam todos a leitura. Na calibração de sensores onde trabalho, chamar-lhe-ia instrumento com desvio sistemático elevado e sem curva de correcção conhecida. A intuição quotidiana raramente separa o instrumento da grandeza que julga medir.
Fica em aberto uma questão que não me atrevo a resolver: a percepção é proporcional ao fluxo, ou há um limiar não-linear? Pertence à fisiologia sensorial — não é a minha área.
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