Saí do metrô na Praça Onze com a ideia vaga de chegar à Leopoldina a pé — não pela linha expressa, mas pelos fundos, cortando o Caju. Não sei bem por que escolhi esse trajeto. Talvez fosse o nome: Caju. Parece um bairro que merece ser visitado com calma, e não só de carro na velocidade do viaduto.
O problema é que saí pela saída errada, que me depositou olhando para o Campo de Santana em vez de para a Radial Oeste. Andei dois quarteirões na direção oposta antes de perceber que o sol estava do lado errado. Corrigi o rumo sem pressa, como se fosse intencional — que é o único jeito digno de errar em público.
Na Rua Major Ávalo, ou se não me engano numa paralela bem parecida, tinha uma padaria com letreiro pintado direto na parede, letras garrafais em azul que um dia foram escuras e agora estão pálidas como céu de manhã cedo. O estilo era dos anos oitenta, aquela serifa grossa que ninguém usa mais mas que assentava bem no cimento desbotado. A porta estava aberta, o ventilador ligado, e alguém lá dentro chacoalhava um liquidificador com bastante determinação.
Parei num balcão sem placa aparente e pedi um café. O copo plástico chegou antes mesmo de eu terminar a frase. Estava quente e um pouco mais doce do que eu teria pedido, mas há algo honesto num café que não fica esperando você se decidir. Tomei de pé, devolvi o copo com um aceno que significa obrigado em qualquer bairro da cidade, e continuei.
O resto do caminho foi mais ladeira do que eu esperava para uma parte que parece plana no mapa. Entrei por uma viela que me levou para cima em vez de para o lado, saí num pátio de carga que talvez não fosse passagem pública — ou pelo menos não parecia — e voltei para a calçada via uma escada sem corrimão que cheirava a mofo e a algum tempero que não soube identificar. Cheguei à Leopoldina com quarenta minutos de atraso e os pés com opinião própria sobre o assunto.
No metrô de volta, anotei no caderno: saída errada, direção errada, viela errada — percurso perfeito.
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