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Há um momento no início de "Killing Time" — primeira faixa de Imaginal Disk, de Magdalena Bay (2024) — em que os sintetizadores entram em camadas tão calibradas que parece ouvir-se um mecanismo a ser montado peça a peça. A voz de Mica Tenenbaum surge depois, limpa e ligeiramente distanciada, como se viesse de dentro do aparelho.
Ouvi o disco ontem à tarde, aqui em casa, nos auscultadores, com a luz de agosto a achatar tudo lá fora. O calor torna certa música mais mecânica do que seria noutro momento. A produção de Matthew Lewin é, por natureza, muito precisa — e havia uma coincidência entre o estado e o som que tornou a escuta mais limpa do que esperava.
Imaginal Disk não recusa o prazer imediato: há refrões que ficam, progressões que resolvem com satisfação previsível. Mas carrega essas estruturas com uma inquietação que só se torna audível quando se para de fazer outra coisa enquanto se ouve. A produção tem uma qualidade de espelho — brilhante na superfície, com profundidade atrás. Não a profundidade opaca dos discos que recusam revelar-se; antes a de algo que sabe exactamente o que é.
O que o disco não está a tentar é ser ambíguo sobre os seus temas: identidade, fragmentação da consciência, a relação entre tecnologia e o eu. Tudo declarado com clareza quase programática, nos títulos, nas letras, na arquitectura do álbum. O que por vezes não resolve é a tensão entre essa declaração e a experiência emocional que promete. Há momentos em que a camada harmónica sustenta algo que a letra não consegue aterrar.
Tenho a impressão de que o disco funciona melhor quando não perseguimos os conceitos e deixamos as texturas trabalhar. A segunda metade é onde isso acontece com mais consistência — onde a produção parece confiar mais no som do que nos temas que o enquadram. É onde volto.
#musica #pop #critica #escuta
Há uma canção no álbum onde o acorde não resolve. Fica suspenso, e Phil Elverum não faz nada para o conduzir — avança para a frase seguinte como se a música soubesse que resolução não existe. É um pormenor que podia passar despercebido, mas que numa segunda escuta se torna o centro de gravidade de A Crow Looked at Me (Mount Eerie, 2017).
O álbum foi gravado no quarto onde a sua mulher, a artista Geneviève Castrée, morreu de cancro do pâncreas em julho de 2016. Elverum diz isso na primeira canção, sem metáfora, sem preparação. A instrumentação é mínima — guitarra acústica, percussão muito contida, raramente mais do que isso. O mix é próximo e seco, como se o microfone estivesse na mesma divisão que a dor.
Ouvi pela primeira vez numa tarde de outubro, com fones, sem fazer mais nada. A luz entrava de lado pela janela. Não é o disco certo para ouvir enquanto se faz outra coisa — pede presença, não porque seja difícil, mas porque as letras são tão diretas que distrair parece uma espécie de descortesia.
O que o disco não tenta fazer: consolar. Não há arco de recuperação, não há lição para quem ouve. Elverum não escreve sobre o luto em geral — escreve sobre aquela pessoa, aqueles objetos, aquele dia. O que talvez não alcance completamente é a tensão entre documento e obra — há momentos em que a fronteira pesa sobre a música, como se a forma não conseguisse sustentar o conteúdo sem se curvar.
Mesmo assim, é um disco que fica. Não porque seja belo — não é, ou não principalmente — mas porque é honesto de uma forma difícil de fabricar.
#música #luto #critica #álbum
O arpejo de sintetizador que abre o primeiro andamento de Promises começa por baixo do que se espera — uma série de notas em loop quase imperceptível, como alguém afinando antes de acreditar que o concerto já começou. Fica em rotação por tempo suficiente para me fazer perguntar se é isto tudo, se a promessa do título é exactamente esta: a iminência sem chegada.
Promises, de Floating Points, Pharoah Sanders e a London Symphony Orchestra, saiu em 2021. É uma peça contínua dividida em nove andamentos, e tenho regressado a ela sem saber bem o que estou à procura.
O que Sam Shepherd faz com a orquestra não é jazz com cordas no sentido convencional — as cordas não ornamentam nem sublinham, existem como atmosfera, como pressão baixa antes da chuva. A dinâmica mantém-se dentro de uma banda muito estreita durante toda a duração: nunca fortíssimo, raramente pianíssimo. O saxofone de Sanders entra no segundo andamento com aquela voz que reconheço mas que não consigo nomear por géneros. Soa-me a alguém a falar devagar porque tem a certeza do que diz.
Ouvi o disco anteontem à tarde com auscultadores, as janelas abertas para o calor que ainda não aliviou. Tenho a impressão de que o ambiente importa aqui: a música não exige silêncio absoluto, tolera o autocarro lá fora, os pombos no terraço. Talvez seja por isso que funciona melhor como companhia do que como espectáculo — não me convida a fechar os olhos e concentrar, convida-me a continuar a estar onde estou.
O que o disco não está a tentar fazer é resolver alguma coisa. Não há arco narrativo com clímax guardado para o fim. Quem chegar à espera de desenvolvimento no sentido clássico vai sair desapontado. O que não chegou, para mim, foi o nono andamento — a conclusão parece encolher onde eu esperava que expandisse, e ainda não decidi se isso é intencional ou uma limitação do formato.
Volto ao terceiro andamento quando preciso de começar qualquer coisa difícil.
#musica #jazz #critica #escuta