Há um momento no início de "Killing Time" — primeira faixa de Imaginal Disk, de Magdalena Bay (2024) — em que os sintetizadores entram em camadas tão calibradas que parece ouvir-se um mecanismo a ser montado peça a peça. A voz de Mica Tenenbaum surge depois, limpa e ligeiramente distanciada, como se viesse de dentro do aparelho.
Ouvi o disco ontem à tarde, aqui em casa, nos auscultadores, com a luz de agosto a achatar tudo lá fora. O calor torna certa música mais mecânica do que seria noutro momento. A produção de Matthew Lewin é, por natureza, muito precisa — e havia uma coincidência entre o estado e o som que tornou a escuta mais limpa do que esperava.
Imaginal Disk não recusa o prazer imediato: há refrões que ficam, progressões que resolvem com satisfação previsível. Mas carrega essas estruturas com uma inquietação que só se torna audível quando se para de fazer outra coisa enquanto se ouve. A produção tem uma qualidade de espelho — brilhante na superfície, com profundidade atrás. Não a profundidade opaca dos discos que recusam revelar-se; antes a de algo que sabe exactamente o que é.
O que o disco não está a tentar é ser ambíguo sobre os seus temas: identidade, fragmentação da consciência, a relação entre tecnologia e o eu. Tudo declarado com clareza quase programática, nos títulos, nas letras, na arquitectura do álbum. O que por vezes não resolve é a tensão entre essa declaração e a experiência emocional que promete. Há momentos em que a camada harmónica sustenta algo que a letra não consegue aterrar.
Tenho a impressão de que o disco funciona melhor quando não perseguimos os conceitos e deixamos as texturas trabalhar. A segunda metade é onde isso acontece com mais consistência — onde a produção parece confiar mais no som do que nos temas que o enquadram. É onde volto.
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