Saí da estação do Méier com a intenção de ir até a Rua Aristides Caire, que tinha marcado no caderninho há três semanas sem nunca ter chegado lá. O plano era direto: descer pela Dias da Cruz, dobrar à esquerda, andar uns vinte minutos. O que aconteceu foi que dobrei à direita.
Percebi o erro mais ou menos na altura de uma ladeira sem nome visível, onde a calçada afunila até sobrar espaço pra uma pessoa e meia. No alto da subida tinha uma parede com um anúncio pintado à mão — daqueles azul-e-branco que vendem remédio veterinário — com uma data que, se não me engano, era de 1987. A tinta descascava em escamas grandes, mas a letra do nome do produto ainda era legível. Esse tipo de coisa me faz parar mais tempo do que devia.
Desci por um caminho diferente, atravessando uma pracinha com dois bancos e uma árvore enorme que eu não soube identificar — folha larga, tronco com raízes que levantam a calçada em ondas. Deve ter uns quarenta anos, pelo menos. Ninguém na pracinha parecia se importar com isso, o que é o comportamento correto.
No meio do caminho de volta à rota certa, entrei num botequim de esquina pra tomar um café. O balcão era de mármore com uma mancha escura no centro, do tipo que se forma depois de décadas de copos. O café veio quente e curto, com aquele amargor que não pede desculpa. Tomei de pé, como mandam as regras não escritas.
Cheguei na Aristides Caire quase uma hora depois do planejado, com os pés já reclamando da calçada quebrada. A rua não tinha nada de especial que eu consiga descrever agora. Anotei uma coisa no caderninho que já não sei ler direito: sobrado azul, janela fechada, vaso de planta na soleira. Talvez fosse isso que eu tinha ido buscar.
No ônibus de volta, a única linha que escrevi foi: tomei a rua errada e cheguei do mesmo jeito.
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