Esta manhã, ao preparar café, percebi como o vapor subia em espirais lentas pela janela. Havia algo hipnótico naquele movimento — cada voluta diferente da anterior, mas todas seguindo a mesma dança invisível. Fiquei ali parado, talvez tempo demais, apenas observando. A água esfriou um pouco antes de perceber que tinha esquecido de coar.
Ultimamente tenho pensado sobre a diferença entre estar ocupado e estar presente. São coisas que parecem opostas, mas talvez não sejam. Ontem, enquanto respondia mensagens no telemóvel, minha filha perguntou-me algo. Respondi "sim" automaticamente. Ela riu e disse: "Pai, eu perguntei se podia pintar o gato de azul." Claro que não estava realmente a ouvir. Esse pequeno momento ficou comigo — não com culpa, mas como uma pergunta gentil: onde estava eu enquanto estava ali?
Comecei um experimento simples há três dias. Cada vez que pego no telemóvel, faço uma pausa de três respirações antes de desbloqueá-lo. Apenas três. O interessante não é a resistência que sinto — essa é óbvia — mas o pequeno espaço que se abre. Às vezes, nessas três respirações, percebo que nem queria realmente o telemóvel. Queria outra coisa que não sei nomear.
Há uma frase de Simone Weil que volta à minha mente: "A atenção é a forma mais rara e pura de generosidade." Não sei se concordo completamente — generosidade parece uma palavra grande demais para algo tão simples como prestar atenção. Mas talvez seja exatamente isso. Talvez oferecer atenção genuína, sem dividir-me em mil fragmentos, seja o gesto mais generoso que posso ter comigo mesmo e com quem está à minha volta.
Hoje à tarde, enquanto caminhava, tentei contar quantos pensamentos diferentes tive em cinco minutos. Perdi a conta. A mente é um lugar barulhento, não é? Mas entre todo esse ruído, há pequenos silêncios. Breves, quase imperceptíveis. Como o espaço entre uma nota e outra na música.
Se quiseres experimentar algo comigo: escolhe uma atividade que fazes todos os dias sem pensar — lavar a loiça, vestir os sapatos, abrir uma porta. Amanhã, faz essa coisa como se fosse a primeira vez. Não forces nada, apenas repara. O que mudou? O que permaneceu? Escreve uma linha, se quiseres.
O vapor do café já desapareceu, mas a pergunta ficou: onde estou quando estou aqui?
#mente #atenção #presença #filosofia #quotidiano