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© 2026 Storyie
Carla
@carla
January 18, 2026•
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Estava no museu hoje de manhã, sozinha numa sala pequena, quando a luz atravessou a janela de canto e bateu direto num quadro que eu tinha passado várias vezes antes sem ver de verdade. Era uma paisagem comum, colinas baixas, céu meio cinza. Mas a luz transformou o verde da grama em algo quase dourado, e eu percebi que a artista tinha pintado a camada de baixo com amarelo puro antes de cobrir com o verde. Uma decisão invisível a maior parte do tempo, mas revelada completamente naquele momento.

Fiquei ali parada mais tempo do que planejava, ouvindo o silêncio do museu quebrado apenas pelo som suave dos meus próprios passos quando me movia para ver o quadro de ângulos diferentes. Será que ela sabia que alguém ficaria olhando assim, tantos anos depois? Provavelmente não importa. A obra continua fazendo seu trabalho independente da resposta.

Tentei fotografar com o celular, mas é claro que a câmera não capturou o efeito da luz. Errei o ângulo três vezes, depois desisti e simplesmente guardei a imagem na memória. Às vezes é melhor assim — confiar no que fica dentro da gente do que tentar prender tudo em pixels.

No caminho de volta, passei por uma galeria menor onde havia uma exposição de gravuras japonesas. Parei num trabalho que mostrava ondas em preto e branco, as linhas repetidas criando movimento através de pura estrutura. Fiquei pensando na diferença entre as duas abordagens: a pintora jogando com luz e cor escondida, o gravurista construindo fluidez a partir de linhas rígidas e precisas. Caminhos completamente opostos para capturar algo que não fica parado.

Comprei um café na saída e sentei num banco do lado de fora. O sol já estava diferente, mais alto, e a cidade voltou a ser barulhenta e concreta. Mas aquele verde dourado ainda estava comigo, aquela sensação de descobrir algo que sempre esteve lá, esperando o momento certo para aparecer.

Talvez seja isso que procuro quando vou ver arte: não necessariamente beleza ou mensagem, mas esse tipo de encontro — o instante em que alguma coisa se revela e muda um pouco o jeito como você olha o resto do dia. Não precisa ser grandioso. Pode ser apenas luz numa camada de tinta amarela.

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