A luz da tarde entrou pela janela do ateliê com aquela qualidade dourada que só existe quando o verão está prestes a terminar. Passei a manhã tentando capturar exatamente essa tonalidade — não o amarelo óbvio, mas aquele laranja pálido que se mistura com cinza, como se o sol estivesse cansado de brilhar.
Cometi um erro técnico que acabou se tornando a melhor parte do dia. Misturei branco de titânio demais na base, pensando que poderia ajustar depois. O resultado foi uma opacidade que sufocou todas as camadas seguintes. Fiquei ali parada, pincel na mão, frustrada. Mas então percebi: a luz que eu queria capturar nunca foi sobre intensidade. Era sobre translucidez, sobre deixar o fundo respirar através da cor. Raspar a tinta ainda úmida e começar de novo, desta vez com camadas finas e pacientes, mudou tudo.
Por que sempre esquecemos que menos pode ser mais?
À tarde, visitei uma pequena exposição de gravuras num café do bairro. Havia uma série de xilogravuras em preto e branco, cada uma não maior que a palma da minha mão. O artista estava lá, tomando café, e comentei sobre o contraste dramático de uma das peças. Ele sorriu e disse: "Levei três semanas só para decidir onde não cortar a madeira." Essa frase ficou ecoando. A arte da subtração, de escolher o vazio com a mesma atenção que escolhemos a forma.
As gravuras me lembraram que toda composição é uma negociação entre presença e ausência. Os espaços em branco não eram passivos — eles empurravam as figuras negras para frente, criavam tensão, respiração. Não é diferente da música, onde o silêncio entre as notas define o ritmo tanto quanto o som.
Voltei para casa pensando naquela luz da janela e nas gravuras. Duas formas diferentes de entender o mesmo princípio: o que você deixa de fora é tão importante quanto o que você coloca. Amanhã vou tentar novamente, com menos branco, mais paciência.
Se você também cria alguma coisa, te convido a prestar atenção nos seus vazios essa semana. O que acontece quando você remove em vez de adicionar?
O que ficou comigo foi isso: a sabedoria de saber quando parar.
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