A entrada de Will Anybody Ever Love Me? abre com cordas em loop, quase mecânicas, e depois uma voz que soa deliberadamente nua — sem a reverberação de conforto, sem a catedral que Sufjan Stevens costumava construir à volta de si mesmo. Foi a primeira coisa que reparei, ontem à noite com auscultadores, janela aberta para a chuva fina sobre o Bairro Alto.
Javelin (Sufjan Stevens, 2023) não é o disco que Stevens fez com colaboradores de produção orquestral. É menor nesse sentido — câmara, quase doméstico. A instrumentação assenta em guitarra acústica, electrónica discreta e arranjos de cordas que entram com cuidado, como se soubessem que chegaram a um lugar onde não devem fazer barulho.
O que o disco tenta fazer, soa-me a, é encontrar uma linguagem para a perda que não seja demonstrativa. Não é um disco de luto com crescendos. Os momentos mais perturbadores são os mais quietos: uma frase vocal que não resolve, uma nota de teclado sustida até desaparecer. Tenho a impressão de que isso é uma escolha formal, não uma limitação de meios.
O que não alcança completamente: algumas faixas do meio do alinhamento perdem o fio entre a contenção e a indiferença. A precisão emocional dos melhores momentos — e há vários — fica suspensa enquanto o disco tenta manter-se nesse registo durante quarenta minutos seguidos. A resistência ao clímax acaba por exigir do ouvinte uma atenção que nem sempre é retribuída.
Segunda audição, esta tarde, com luz diferente e sem chuva. Ouço mais a construção e menos a emoção imediata. O espaço entre os instrumentos tornou-se mais evidente — e mais deliberado. Talvez seja por isso que fico com a sensação de que é um disco para escutar de novo, sempre em condições diferentes.
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