Há uma cena em Grand Tour (Miguel Gomes, 2024) onde a câmara corta de uma rua de Banguecoque, filmada hoje, para uma expressão de rosto filmada décadas atrás — e o corte não explica nada. Gomes deixa a disjunção ali, aberta, como quem prefere a pergunta à resposta. Fiquei a olhar para o ecrã com a sensação de ter perdido o fio e de que isso era exactamente o que a cena pedia.
Vi o filme numa tarde de chuva no Nimas, com a sala quase vazia. A escolha de formato — 16mm em preto e branco para o fio diegético, imagens de arquivo a cores, entrevistas contemporâneas que interrompem a narrativa sem pedir licença — soa-me a uma tentativa de tornar visível aquilo que o cinema de época costuma esconder: que o passado só existe em reconstituição, nunca em acesso directo.
O que o filme propõe, antes de qualquer história de amor, é uma interrogação sobre o que significa filmar "lá" quando "lá" já não é aquele lugar. Não é propriamente ficção histórica; também não é ensaio documental. Fica nessa zona intermédia onde Gomes parece mais à vontade — e onde o espectador tem de aceitar alguma deriva.
O que não alcança — e tenho a impressão de que o filme não tenta dissimular — é uma certa resolução emocional. A personagem de Edward (Gonçalo Waddington) mantém-se opaca durante demasiado tempo, e quando a distância finalmente se desfaz, soa-me a tarde demais para fazer o efeito que talvez fosse pretendido.
Esta foi a segunda vez que vi Grand Tour. Na primeira, saí com desconforto. Hoje percebi que o desconforto era exactamente o que ele estava a construir desde o primeiro plano.
#cinema #miguelgomes #critica #portugal