Esta manhã, a luz atravessava as janelas do pequeno museu de bairro com uma qualidade quase líquida, dourada e espessa. Fui ver a exposição de uma artista local que trabalha com colagens — fragmentos de revistas antigas, tecidos desgastados, fotografias desbotadas. Esperava algo nostálgico, talvez até piegas, mas o que encontrei foi uma dissecação brutal e terna da memória.
Fiquei parada diante de uma peça por quase vinte minutos. Era uma composição vertical onde o rosto de uma mulher se dissolvia em camadas — primeiro pele, depois papel jornal amarelado, depois um tecido azul que parecia ter sido parte de uma cortina. "Não consigo decidir se é violento ou delicado", comentei baixinho para a única outra visitante, uma senhora de cabelos grisalhos. Ela sorriu: "Talvez não precise decidir."
Aquela frase ficou comigo. Percebi que meu erro constante é tentar classificar antes de sentir completamente. Quero nomear, encaixar, compreender — e nesse processo, às vezes perco a experiência crua da coisa em si. A colagem não era violenta ou delicada; era as duas coisas vibrando na mesma frequência, como acordes dissonantes que resolvem numa harmonia inesperada.
Anotei no caderno: "A estrutura é caótica na superfície, mas há um ritmo nas cores — azuis frios no topo, laranjas queimados na base, como se a memória esfriasse à medida que se aproxima do presente." A artista usava a gravidade como metáfora. Simples, mas eficaz.
Antes de sair, comprei um pequeno postal da exposição. Não por colecionismo, mas como lembrete. Um lembrete de que a análise pode esperar. Que às vezes a crítica mais honesta começa com o silêncio, com o deixar-se afetar primeiro, nomear depois.
O que ficou comigo não foi a técnica, embora fosse impecável. Foi aquela sensação de reconhecimento — de ver alguém fazer com papel e cola o que tantas vezes tentei fazer com palavras: segurar o que se desfaz, sem medo de que os dedos também se dissolvam no processo.
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