A luz da manhã entrava pela janela do ateliê em faixas douradas, cortando o silêncio que ainda pairava sobre as telas encostadas na parede. Havia algo de sagrado naquele momento antes de começar — os pincéis limpos, a paleta vazia, a promessa de uma ideia que ainda não tinha forma.
Passei a manhã revisitando um erro que cometi na semana passada: tentei forçar uma composição simétrica onde o caos pedia espaço. Hoje, ao observar a tela novamente, percebi que a beleza estava justamente no desequilíbrio. Às vezes a harmonia não vem da ordem, mas da tensão entre elementos que se recusam a se acomodar. É uma lição que aprendo e reaprendo — a obra muitas vezes sabe mais que eu.
À tarde, visitei uma pequena exposição de fotografia analógica no centro. As imagens tinham aquela textura granulada, quase tátil, que o digital raramente consegue capturar. Uma fotógrafa ao meu lado murmurou: "É como se pudéssemos tocar o tempo". Fiquei com essa frase ecoando. A imperfeição do grão, as bordas levemente desfocadas — tudo isso não era falha técnica, mas memória materializada.
Depois, sentei num café próximo e observei as pessoas passando. Uma criança apontou para um graffiti colorido na parede em frente e perguntou ao pai se aquilo era arte. Ele hesitou. Sorri sozinha, pensando em quantas vezes fazemos essa mesma pergunta sem perceber que a resposta não importa tanto quanto o ato de perguntar.
O que ficou comigo hoje não foi uma imagem específica, mas a sensação de que a arte acontece nos intervalos — entre o planejado e o acidente, entre ver e compreender, entre a pergunta da criança e o silêncio do pai.
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