Há um plano em Vitalina Varela em que a luz entra por uma fresta estreita numa parede de betão e atravessa o quarto quase na horizontal — não ilumina nada por completo, apenas recorta um ombro, uma maçaneta, o bordo de uma porta entreaberta. Pedro Costa mantém esse plano tempo suficiente para que deixe de ser decorativo e se torne uma proposição formal: isto é o que existe aqui, nem mais nem menos.
Vi o filme ontem à noite, depois das onze, com o portátil pousado na cama e os estores do quarto fechados. Sei que não é a condição ideal — o ecrã pequeno, a resolução comprometida pelo streaming. Mas havia qualquer coisa no silêncio da rua cá fora que acabou por servir. Vitalina Varela (Pedro Costa, 2019) pede atenção lenta, e a noite providenciou essa disposição sem que eu pedisse.
A paleta é quase monocromática na prática, mesmo a cores: negros profundos, cinzentos densos, e um laranja quente e pontual — uma chama, um filamento exposto — que parece sempre prestes a extinguir-se. O ritmo é muito deliberado: poucos cortes, planos longos, diálogos que chegam aos fragmentos, silêncios que a banda sonora não se apressa a preencher. Costa não está a construir tensão dramática no sentido convencional; está a registar a existência de pessoas que o cinema costuma ignorar ou apenas citar de passagem. Essa distinção importa para entender o que o filme é e o que não pretende ser.
O que não pretende ser: não é uma denúncia social com arco narrativo satisfatório. Não conclui. Não resolve conflitos com legibilidade emocional imediata. Tenho a impressão de que alguém que entre na sala à espera de progressão dramática sairá desconcertado, e que esse desconcerto pode ser lido como falha formal ou como recusa deliberada — depende do que cada um entende que o cinema deve ao espectador.
O que me ficou foi a não-actriz Vitalina Varela a interpretar-se a si própria num close-up que Costa sustenta sem corte durante o que serão dois ou três minutos. A câmara não a salva de nada. Não enquadra para tornar a dor mais suportável nem mais bonita. Talvez seja por isso que o plano pesa: não há mediação que amorteça. Soa-me a que o filme inteiro está construído em torno dessa convicção — que olhar de frente, sem fazer da imagem um consolo, é já um acto de respeito.
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