Há uma cena em Aftersun — o filme de Charlotte Wells, de 2022 — em que Calum (Paul Mescal) dança sozinho num corredor de hotel, de costas para a câmara. A montagem não corta onde se esperaria. Wells deixa o plano durar um segundo a mais, e é esse segundo que reorganiza tudo o que veio antes, silenciosamente.
Vi esta tarde, segunda vez, em casa com a luz de maio a entrar pela janela da sala. Da primeira vez, no Nimas, apanhei sobretudo a superfície: as imagens VHS intercaladas com película, os enquadramentos instáveis, o azul repetido da piscina. Desta vez fui prestando atenção à montagem de Blair McClendon — os cortes acontecem onde a memória tropeça, não onde a narrativa pediria progressão. É uma diferença que só se sente na segunda visão.
O filme não está a tentar explicar Calum. É importante dizer isso antes de qualquer outra coisa. Não é um estudo de depressão nem uma reconstituição psicológica. É a tentativa de uma filha adulta de reconstituir umas férias que não compreendeu enquanto as vivia. A forma segue essa premissa: o VHS granulado é a memória de Sophie, lacunar e imprecisa, não o documento de um estado interior a que ela não tinha acesso.
O que talvez falte — e talvez não seja o que o filme está a tentar alcançar — é a textura do tédio genuíno das férias. Os dois raramente parecem simplesmente a descansar sem propósito visível. Há uma tensão latente que orienta o espectador com demasiada frequência. Tenho a impressão de que é uma escolha deliberada, não uma lacuna.
A cena da discoteca, com Under Pressure ao fundo: o corte para as imagens de VHS da filha adulta acontece exactamente na mudança de compasso. Não é discreto. É cirúrgico, e é o momento em que o filme se torna outra coisa inteiramente.
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