Space 1.8, de Nala Sinephro, abre com a harpa a entrar numa frequência tão baixa que por um instante confundo-a com uma ressonância do apartamento — o trânsito cá fora, o aquecedor a ganhar temperatura. Eram quase onze da noite quando coloquei os auscultadores. Janela aberta, os carros ainda passavam. Demorei uns minutos a perceber que o que ouvia era intencional.
O disco saiu em 2021 pela Warp Records. Sinephro compôs e tocou tudo ela própria: harpa, sintetizadores modulares, arranjos de câmara. A instrumentação é densa mas não pesada — cordas que entram sem ataque percetível, modulares que sustentam mais do que movimentam, percussão quase completamente ausente. O tempo não acelera nem desacelera; existe num plano adjacente ao da escuta quotidiana.
O que o disco está a tentar fazer, tenho a impressão, é criar um estado de atenção específico. Não relaxamento passivo, mas escuta activa sem objecto fixo. Nisso consegue. A harpa de Sinephro tem uma qualidade táctil que os sintetizadores não absorvem por completo: há sempre algo acústico no centro, algo que foi tocado com as mãos antes de ser captado e reformulado pelo circuito analógico.
O que não alcança, ao meu ouvido, é diferenciação interna entre os momentos mais longos. Os oito tracks fundem-se de tal forma que a meio do disco perco o fio de qual é qual. Talvez seja propositado — uma duração sem marcos, uma continuidade deliberada. Mesmo assim, na segunda escuta, feita ontem à tarde com luz diferente e atenção diferente, percebi que há mais variação de textura do que a primeira vez me deixou ver.
Não é um disco para fundo, nem para uma tarde agitada. Exige disponibilidade — uma quietude que não vem do disco, mas de quem decide ouvir.
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