Há um momento nos primeiros quinze minutos de Aftersun (Charlotte Wells, 2022) em que a câmara de férias apanha o pai sem que ele saiba. Ou sabe e escolhe não reagir. O filme não decide por nós, e esse não-decidir é, soa-me agora, a escolha mais representativa de tudo o que se segue.
Vi-o esta tarde pela segunda vez. Na primeira visionagem, há uns meses, o ritmo da montagem entre as gravações em VHS e os fragmentos do "presente" pareceu-me irregular, quase hesitante. Nesta segunda vez, tenho a impressão de que a hesitação é o método. Wells trabalha o material de arquivo — a granulação, a saturação um pouco fora do seu tempo, a qualidade do som comprimido — não como nostalgia decorativa, mas como prova incompleta. Algo aconteceu. O enquadramento não o explica.
A forma é deliberadamente parcial: meias-figuras, rostos cortados pela borda do ecrã, contra-plongées que não resolvem o espaço. Paul Mescal mantém uma contenção física que raramente cede, e quando cede é quase imperceptível. Frankie Corio, como a filha Sophie, tem uma naturalidade que a câmara parece surpreender mais vezes do que ela própria controla — talvez Wells contasse exactamente com isso.
O que o filme não está a tentar fazer é explicar. Não há flashback revelador, não há diálogo-chave que organize retroactivamente o que sentimos. Dentro dessa recusa há uma integridade que resiste à segunda visão, o que não é garantido. O que talvez não alcance — e hesito ao dizê-lo — é a cena final, que opta por uma forma mais explícita do que o que precede. Compreendo a decisão; não tenho a certeza de que concordo com ela.
Estava nublado. Luz de tarde pela janela, o que ajudou a entrar no tempo suspenso do filme.
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