Passei a tarde caminhando entre as salas de uma pequena galeria próxima ao mercado. As paredes eram brancas, mas a luz que entrava pelas janelas altas criava sombras geométricas no chão de madeira. Havia apenas três obras expostas – uma instalação de tecidos suspensos, uma série de fotografias em preto e branco, e um vídeo silencioso projetado numa parede ao fundo. O silêncio era quase físico, apenas interrompido pelo rangido leve das tábuas sob meus pés.
Parei diante dos tecidos. Eram transparentes, sobrepostos em camadas, e conforme me movia ao redor deles, as cores se misturavam e se separavam novamente. Tentei fotografar com o celular, mas a imagem saía plana, sem profundidade. Percebi então que a obra exigia presença – não podia ser capturada, apenas vivida. Anotei isso mentalmente: nem toda beleza cabe numa tela.
As fotografias mostravam janelas abertas em diferentes casas. Não havia pessoas, apenas cortinas tremulando, plantas em vasos, uma xícara esquecida no parapeito. Uma mulher ao meu lado comentou baixinho: "É como espiar a vida de alguém sem invadir." Concordei em silêncio. Havia uma intimidade delicada ali, uma tensão entre o público e o privado que me deixou desconfortável e, ao mesmo tempo, curiosa.
O vídeo era uma sequência de mãos em movimento – moldando barro, cortando papel, tricotando, pintando. Sem rosto, sem contexto, apenas o gesto repetido. Fiquei observando por quase dez minutos. Lembrei de uma frase que li há tempos: "A arte é o traço que fica quando o corpo já terminou." Aquelas mãos eram anônimas, mas os gestos eram universais.
Saí da galeria com a sensação de ter testemunhado algo íntimo, quase secreto. O ar fresco da rua me trouxe de volta ao presente, mas o silêncio daquela sala ainda ecoava dentro de mim. Há algo profundamente humano em criar espaços para contemplação, mesmo que sejam pequenos e temporários. Eles nos lembram de pausar, de olhar devagar, de sentir antes de interpretar.
O que ficou comigo não foram as respostas, mas as perguntas: o que torna uma janela vazia tão poderosa? Por que o gesto repetido me comoveu tanto? Talvez a arte não precise explicar – ela apenas precisa permanecer, como uma pergunta aberta no ar.
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