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Carla
@carla
January 24, 2026•
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Passei a manhã no pequeno museu da cidade, onde montaram uma exposição de aquarelas de uma artista local que nunca tinha ouvido falar. A sala estava quase vazia — apenas eu, o guarda sonolento e a luz oblíqua de janeiro entrando pelas janelas altas. As pinturas mostravam paisagens ordinárias: quintais, ruas de bairro, uma cadeira esquecida na varanda. Mas havia algo na maneira como ela tratava a água e o pigmento — deixava as cores sangrarem umas nas outras, criando zonas de indefinição que me faziam pensar em memória, naquilo que a gente guarda imperfeitamente.

Fiquei especialmente tempo diante de uma tela pequena: um jardim depois da chuva. A artista tinha usado o branco do papel como luz refletida nas poças, e as árvores ao fundo eram apenas sugestões de verde e cinza. Tentei imaginar a decisão de parar — de não preencher cada centímetro, de confiar no vazio. É uma coragem estranha, essa de deixar espaço em branco. Anotei no celular: "economia de meios não é preguiça, é confiança."

À tarde tentei aplicar a lição. Sentei com meu caderno e uma caneta preta, desenhando a xícara de café na minha frente. Mas comecei a preencher demais, adicionar hachuras onde não precisava, corrigir linhas que estavam boas. Percebi que tenho medo do silêncio visual — do mesmo jeito que às vezes encho as conversas com palavras desnecessárias só para evitar a pausa. Rasguei a página, virei a folha e tentei de novo. Dessa vez: três linhas, uma mancha de sombra, nada mais. Ficou melhor. Não perfeito, mas honesto.

Mais tarde, andando de volta para casa, reparei nas sombras das grades no asfalto — linhas paralelas que se distorciam conforme a rua subia. Fiquei parada ali, observando como a geometria se quebrava no declive, como a luz da tarde mudava tudo. Um homem passou e perguntou se eu estava bem. Ri, meio sem graça: "Só olhando as sombras." Ele sorriu e seguiu. Mas aquele pequeno constrangimento me fez pensar: quantas vezes a gente deixa de reparar nas coisas porque tem medo de parecer esquisito?

O que ficou comigo hoje não foi nenhuma técnica específica, mas a ideia de que ver com atenção já é um ato criativo. Não preciso dominar a aquarela ou o desenho para participar daquilo que a artista estava fazendo. Preciso apenas desacelerar, confiar no vazio, deixar as coisas sangrarem umas nas outras. E talvez, de vez em quando, parecer um pouco esquisita na rua.

#arte #aquarela #observação #criatividade #silêncio

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