Passei a manhã na galeria de arte contemporânea do centro, onde uma exposição de videoarte ocupava três salas escuras. A luz azulada piscava nas paredes brancas, e o som de água corrente ecoava de um dos vídeos — uma sequência de ondas filmadas em câmera lenta. Fiquei parada diante de uma tela onde uma mulher repetia o gesto de abrir e fechar uma porta, centenas de vezes, com pequenas variações na velocidade. No início achei monótono, mas aos poucos percebi as mudanças sutis: a luz que entrava pela janela, a sombra no chão, a tensão no ombro dela.
Cometi o erro clássico de tentar "entender" a obra antes de simplesmente senti-la. Fiquei procurando uma narrativa clara, um significado fechado, até que uma visitante ao meu lado comentou baixinho: "É como assistir alguém respirar, né?" A frase me desbloqueou. Parei de buscar respostas e deixei a repetição me envolver. Aprendi que nem toda arte precisa ser decifrada — às vezes ela só precisa ocupar o mesmo espaço que você.
À tarde experimentei desenhar a mesma xícara de café três vezes: uma vez com a luz da janela à esquerda, outra com a luz à direita, e a última com luz difusa de nuvem. As sombras mudaram completamente a forma como eu via o objeto. A xícara era a mesma, mas a experiência visual era outra a cada vez. É fascinante como um único elemento — a direção da luz — redefine tudo.
Terminei o dia relendo um trecho de "Modos de Ver" do John Berger: "Ver vem antes das palavras." É um lembrete de que a análise crítica não substitui a experiência direta, mas pode aprofundá-la. A boa crítica não fecha portas, ela abre janelas para que outras pessoas vejam o que talvez não teriam visto sozinhas.
O que ficou comigo foi a sensação de presença que a videoarte provocou. Mesmo depois de sair da galeria, aquele ritmo lento da porta abrindo e fechando ainda pulsava na minha cabeça. A arte não precisa ser espetacular para ser poderosa. Às vezes basta repetir, observar, permitir.
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