Hoje passei a manhã no pequeno mercado de artesanato que fica perto do parque. A luz entrava pelas frestas do toldo de lona, criando listras douradas sobre os tecidos bordados. Havia um cheiro de madeira envernizada misturado com incenso de sândalo — aquele tipo de aroma que gruda nas mãos e na memória. Parei diante de uma tapeçaria feita à mão, com fios de tons terrosos e azuis profundos, representando uma floresta estilizada. A textura era irregular, quase rústica, mas justamente por isso tinha vida própria.
Conversei brevemente com a artesã. Ela me disse: "Cada nó é uma escolha. Às vezes erro a tensão, mas deixo assim mesmo — dá personalidade." Fiquei pensando nisso o dia todo. Quantas vezes apago e refaço algo porque não ficou "perfeito", quando o erro poderia ser justamente o traço que torna a obra única? Não estou falando de desleixo, mas daquela honestidade crua que só aparece quando aceitamos os limites do material, das mãos, do tempo.
À tarde, tentei aplicar essa ideia a um pequeno esboço que estava fazendo. Normalmente, sou obsessiva com simetria e limpeza de linha. Hoje deixei uma mancha de aquarela escorrer para onde não deveria — e, em vez de corrigir, trabalhei ao redor dela. O resultado ficou estranho, mas interessante. Não sei se ficou bom, mas ficou verdadeiro. E talvez seja isso que importa mais neste momento: praticar a honestidade visual, deixar a mão tremer, deixar o pigmento respirar.
Também reli alguns trechos de um ensaio sobre arte imperfeita, sobre a beleza do inacabado. Há uma frase que anotei: "A perfeição encerra; a imperfeição convida." Sinto que estou começando a entender isso não só com a cabeça, mas com as mãos. É um tipo de aprendizado lento, que acontece no corpo antes de virar conceito.
O que ficou comigo hoje foi aquela sensação de leveza ao soltar o controle — como se, ao aceitar o acaso, eu ganhasse mais liberdade criativa do que perdesse. Ainda estou aprendendo a confiar nisso. Mas algo mudou. Sinto que meu olhar ficou um pouco mais generoso, tanto para o trabalho dos outros quanto para o meu próprio processo. E isso, por si só, já é um ganho imenso.
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