O alho estilhaçou no fundo da panela antes que eu percebesse que o fogo estava alto demais. Um segundo — só um — e o cheiro virou algo amargo, quase cinzento. Apaguei, esperei, recomeçei do zero com um fio de azeite mais generoso e o fogo no menor.
Tinha trazido da feira hoje cedo um molho de coentro e duas cebolas roxas que a Dona Biu guardou debaixo da bancada pra mim. "Essas são mais doces", ela disse, sem mais explicação. Comprei também um punhado de camarões secos na banca do lado — os menores, porque custam menos e dissolvem melhor no molho.
O refogado levou tempo. A cebola amoleceu devagar, esfarelou nas bordas, soltou aquela umidade que prende ao fundo da panela sem queimar. Quando o coentro entrou, o cheiro fechou o ambiente todo — aquele verde forte que a vovó usava com mão pesada lá no interior, onde a cozinha ficava quente o dia inteiro e o aroma impregnava as paredes de barro.
Coloquei sal demais. Percebi quando já tinha adicionado o leite de coco e era tarde pra tirar. A solução foi mais um pouco de leite e um punhado de arroz que sobrou do almoço de ontem — absorveu o excesso e engrossou o caldo de um jeito que eu não planejei, mas ficou com aquela consistência que adere à colher antes de escorrer.
A primeira mordida chegou quente, e o camarão seco esfrega levinho na língua antes de desfazer. O sabor de fundo é gorduroso e levemente defumado, fica na garganta por alguns segundos, depois some. A boca retém o coentro mais tempo do que tudo o mais.
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